Por que a polícia sempre alega “confusão” após matar inocentes?

Casos recentes mostram como a narrativa da “confusão” é usada para justificar mortes cometidas por policiais e reproduzida sem questionamento por parte da imprensa

Charge em preto e branco mostra um policial armado diante de um homem atrás de uma mesa cercada por pilhas de papéis; o policial diz “Cometemos mais um engano!”, em crítica às mortes causadas pela polícia tratadas como erros burocráticos do Estado.

“PMs admitem que confundiram ferramentas com fuzil ao matarem pedreiros em São Gonçalo”

“Policiais confundem carros em perseguição e matam médica a tiros no Rio de Janeiro”

“PM confunde pedaço de madeira com fuzil e mata catador no Rio”

Cada um desses títulos é de uma reportagem da mídia hegemônica sobre casos de mortes cometidas por policiais no Rio de Janeiro. Todas têm o verbo “confundir” como motivação para assassinatos cometidos por agentes do Estado contra pessoas em comunidades periféricas. Você nunca vai ler isso atrelado à Zona Sul do Rio. Nunca a uma pessoa branca rica. Mesmo na “confusão”, a bala sempre acerta certos corpos nos mesmos CEPs no Rio e em todo o país. 

“Essa é uma alegação comum, de que houve ‘confusão’ com algum objeto, e mostra que a imprensa compra a versão do Estado já no título, parece amenizar cada assassinato”, pontuou o meu colega Paulo Batistella, autor da matéria sobre a morte dos pedreiros Marcelo e Edivan em São Gonçalo, município da região metropolitana do Rio, durante a conversa para estabelecer o tema desta newsletter — no caso deles, a desculpa da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) foi de que morreram porque uma ferramenta foi “confundida” com um fuzil.

Marcelo e Edivan, moradores do Jardim Catarina, em São Gonçalo, mortos pela PM | Foto: Arquivo pessoal

É quase como se a vítima, para variar, fosse culpada pela própria morte. Ainda espero alguma alma sebosa comentar: “Mas também fica andando por aí com [insira aqui qualquer objeto, de celular a violoncelo]”. Sempre essa mania infernal de passar pano para tudo o que a policia faz em nome de uma política de segurança falida.

Quando a imprensa fala em “confusão”, ela naturaliza que o Estado escolheu estabelecer uma guerra às drogas, uma guerra em que não prende grandes traficantes no atacado, mas mata pobres ao supostamente combater o tráfico no varejo apenas em determinados territórios. A imprensa naturaliza que a polícia atira para matar nesses locais e contra determinados corpos, os pretos e pardos, mesmo sem ameaça que justifique o uso da força. A imprensa naturaliza, enfim, que o Estado tenha uma polícia feita para executar, e não para policiar. E quando a vítima não é alguém “executável”, com um antecedente criminal que sirva de justificativa, só resta o argumento da “confusão”. 

E a imprensa hegemônica, essa que tem dinheiro, compra rapidamente as mesmas desculpas sem o menor senso crítico em apurar se houve confronto ou ameaça aos policiais. É uma validação nada discreta do modus operandi das polícias no Brasil. Um belo “que se dane” à preservação da vida enquanto se rasga o Código de Ética da nossa profissão, que nos obriga a defender os direitos humanos e sermos contrários “ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão” no fazer jornalístico. 

Quem pode morrer?

Por parte dessa imprensa, não há crítica ao fato de que há territórios em que não se precisa de muito para ser morto. Não se precisa estar armado, pertencer ao crime organizado ou oferecer risco real que imponha um confronto, uma atuação da polícia em legítima defesa. Não há crítica mesmo se a vítima tiver 4 anos de idade e estiver na calçada brincando, como ocorreu no caso do menino Ryan em Santos: estar e ser de locais marcados é o suficiente para ser alvo “natural”. Afinal, são territórios historicamente considerados inimigos naturais. O que opera nesses espaços é a lógica de guerra às drogas e de racismo estrutural seguidos pelas PMs brasileiras.

Diante disso, a narrativa da confusão é desmontada. Não haverá confusão em Copacabana ou Ipanema se uma pessoa branca estiver portando um guarda-chuva. E ela pode até estar portando uma arma e ser um risco ambulante (quem se lembra da prisão do Roberto Jefferson ou da ex-deputada Carla Zambelli?), mas, sendo branco da Zona Sul do Rio, seu corpo não é reconhecido como risco. Nos bairros ricos, não estão as pessoas “executáveis” dessa política de segurança. Agora, o porte de furadeiras, madeiras ou o simples fato de você ser uma pessoa negra em um carro no território “inimigo”, pode custar sua vida sem você precisar cometer crime algum. 

Pode parecer pueril de minha parte, mas vamos combinar: não é normal e muito mesmo legal que pessoas sejam mortas assim. A cada ano que passa na cobertura de segurança pública que fazemos na Ponte, me parece que a preservação da vida pela mão do Estado – o que vai além da segurança pública – é uma mera utopia. O reforço dessa narrativa por parte da imprensa rica é um papel criminoso de capacho da narrativa oficial. Se ela fala em “confusão”, é porque concorda que a polícia está mesmo autorizada a executar pessoas — a confusão estaria no alvo, e não no modo de agir. E isso só reforça a necessidade da Ponte continuar existindo.   

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Leia a matéria original: Ponte Jornalismo