Policiais ocupavam posição de destaque em grupo neonazista, diz MPSC

MPSC denuncia 14 pessoas por integrarem rede extremista que operava em Santa Catarina, São Paulo e Paraná. Agentes paulistas ocupavam postos de destaque em grupo e usavam de estrutura das polícias para agir, segundo a acusação

Viatura da Polícia Civil de São Paulo. O Ministério Público de Santa Catarina denunciou uma escrivã da Polícia Civil e um policial militar de São Paulo por suposta participação em uma organização neonazista que atuava em diferentes estados do país. | Foto: PCSP/Divulgação

Uma escrivã da Polícia Civil e um policial militar do estado São Paulo estão entre os 14 suspeitos de integrar uma organização criminosa neonazista denunciada pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) na última segunda-feira (15/6). 

A denúncia, ajuizada pela 39ª Promotoria de Justiça da Capital, joga luz sobre uma rede que operava de forma silenciosa e coordenada entre as fronteiras de Santa Catarina, São Paulo e Paraná, e que agora aguarda a análise do Judiciário para que os acusados se tornem formalmente réus. 

A participação de agentes paulistas em grupos considerados neonazistas não é uma surpresa absoluta. Ainda em 2024, uma reportagem da Ponte revelou que a Corregedoria da Polícia Civil já investigava dois agentes por suspeita de integrarem um grupo extremista que, em 2021, agrediu um músico antifascista no bairro de Pinheiros, zona oeste da capital paulista. 

Na nova denúncia do MPSC, ficou evidente que os policiais ocupavam posições de destaque. Segundo o órgão, eles eram a linha de frente de apoio logístico e operacional de um líder central, batizado pelos integrantes de “Führer brasileiro”, e utilizavam suas respectivas corporações para agir. 

Todos responderão por organização criminosa, sendo que oito deles também foram denunciados por racismo e apologia ao nazismo.

Rituais de ingresso e os “rolês” de caça

Ao todo, 14 pessoas foram denunciadas pelo MPSC e responderão por organização criminosa, sendo que oito delas também foram denunciadas por racismo e apologia ao nazismo.

A investigação mostrou que o próprio grupo se autodenominava neonazista e adotou como símbolo o “Sol Negro” — um emblema tradicional do ocultismo nazista e da supremacia ariana — adicionando um fuzil AK-47 ao centro da imagem, de acordo com o MPSC. 

Ainda segundo o órgão, para integrar o grupo, interessados preenchiam fichas detalhadas e passavam por um ritual de “batismo” oficial. Uma vez aceitos, pagavam mensalidades obrigatórias destinadas ao custeio de panfletos de propaganda, insumos internos e manutenção das atividades, além de receberem uma camiseta que funcionava como o uniforme.

Havia também encontros presenciais frequentes que serviam para debater a expansão da ideologia e desenhar os chamados “rolês”: patrulhamentos coordenados em vias públicas voltados a caçar, perseguir e agredir opositores ideológicos, apontou o órgão.  

Os investigadores descobriram dossiês detalhados com fotos e dados de potenciais alvos de violência. O MPSC informou que, sabendo do risco de suas atividades, a liderança do grupo também distribuía cartilhas com orientações rígidas de segurança digital e criptografia, uma contraespionagem interna para apagar rastros e impedir que as autoridades vinculassem os membros entre si.

A Operação Nuremberg

Toda essa estrutura foi aprofundada após a deflagração da Operação Nuremberg, coordenada pelo CyberGaeco e pelo Gaeco do MPSC, em outubro de 2025. Os agentes cumpriram 21 mandados de busca e apreensão simultâneos em diferentes regiões do país. No estado de São Paulo, os destinos foram a capital, Campinas, Taboão da Serra e Osasco. 

Durante as diligências, as equipes encontraram farto material de propaganda nazista, além de um arsenal de facas, armas brancas e socos-ingleses prontos para uso em confrontos de rua, divulgaram após o término da operação. A ação, à época, contou com apoio do Ministério Público de três estados (São Paulo, Sergipe e Paraná) e da Polícia Civil de São Paulo.

O nome escolhido para a operação faz alusão aos Julgamentos de Nuremberg, o tribunal militar internacional que, após a Segunda Guerra Mundial, fixou os marcos para a responsabilização de criminosos por atos de barbárie, extremismo e intolerância. 

O que diz a SSP-SP

A Ponte solicitou uma nota à Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo (SSP-SP) questionando se os policiais foram afastados de suas funções. Também o resultado da investigação coordenada pela Corregedoria da Polícia Civil, iniciada em 2024, e quais medidas internas foram tomadas pelo órgão.

Em resposta, a SSP-SP comunicou que, após ter ciência da ação do MPSC, afastou o policial militar denunciado de atividades operacionais. Já a escrivã denunciada responde a um processo administrativo.

Leia a íntegra do que diz a SSP-SP

A Corregedoria da Polícia Civil concluiu, em novembro de 2024, a investigação referente à agressão ocorrida em 2021 no bairro de Pinheiros, indiciando os investigados e encaminhando os autos ao Poder Judiciário e ao Ministério Público. Em paralelo, foi instaurado um Processo Administrativo Disciplinar e uma Apuração Preliminar para esclarecer as responsabilidades da escrivã na esfera administrativa, os quais seguem em andamento. No âmbito da Polícia Militar, após tomar conhecimento da denúncia apresentada pelo Ministério Público, a corporação determinou o afastamento do policial das atividades operacionais e instaurou procedimento para apurar os fatos. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) reforça que as polícias paulistas não compactuam com desvios de conduta e adotam medidas rigorosas para apuração dos casos e responsabilização dos envolvidos.

Leia a matéria original: Ponte Jornalismo