Policiais militares Cauan Alencar Bastos e José Otávio Ribeiro dispararam sete vezes em meio a avenida movimentada de São Paulo. Conforme mostra vídeo, o primeiro deles anunciou que mataria a vítima sem sequer dar voz de rendição

Os policiais militares que mataram o eletricista Igor Eduardo Hyppolito Rodrigues, de 45 anos, em uma ocorrência na cidade de São Paulo, quase atingiram também uma outra pessoa que testemunhou o episódio. Irritada e sem entender o que acontecia, ela questionou os agentes sobre os tiros dados a esmo, ocasião em que foi colocada de joelhos e precisou se desculpar com eles.
O caso ocorreu no último dia 29 de abril, mas voltou a ter repercussão nesta terça-feira (16/6), após o site de notícias Metrópoles publicar um vídeo gravado pela câmera corporal de um dos policiais envolvidos, o cabo Cauan Alencar Bastos, no qual ele aparece anunciando que mataria Igor.
Na ocasião, Cauan desembarcou de uma viatura policial e atirou seis vezes na direção de Igor, postado de pé na Avenida Raimundo Pereira de Magalhães, na zona Norte da capital. Já o soldado José Otávio Ribeiro, que dirigia o veículo, atirou uma vez. A vítima fatal ficou com quatro perfurações no corpo. Já ao menos dois dos sete tiros atingiram um estabelecimento comercial à beira da avenida.
Para a investigação da Polícia Civil sobre o caso, à qual a Ponte teve acesso, uma testemunha que estava no estabelecimento disse ter percebido um projétil passar bem próximo ao seu pescoço e atingir uma parede. Já um outro tiro acertou uma placa do mesmo comércio.
Os disparos foram dados por volta das 16h40 de uma quarta-feira, ocasião em que a avenida estava bastante movimentada por carros e pedestres. O trecho em que se deu a ocorrência tem diversos comércios, incluindo uma loja da rede de lanchonetes McDonald’s.
A testemunha disse ainda à Polícia Civil que foi então confrontar os policiais: “Vocês são doidos? Quase me matam”. A partir disso, um dos agentes apontou uma arma para ela e iniciou uma abordagem, fazendo com que se ajoelhasse. Em seguida, ela teve que se desculpar, o que acalmou os ânimos dos policiais.
Câmera de segurança filmou Igor imóvel ao ver PMs
A ocorrência teve início após Igor discutir com um motociclista no trânsito e ameaçá-lo com uma faca, ferramenta que mantinha no carro por prestar serviços como eletricista.
Após uma primeira ameaça, o motociclista foi a um posto de combustíveis na mesma avenida, onde sabia haver a presença frequente de policiais. No local, ele encontrou Cauan e José Otávio, que o seguiram de viatura para prestar apoio no trecho onde Igor estaria, a menos de 300 metros do posto.
Quando os três alcançaram Igor na avenida, o eletricista desceu do carro com a faca em mãos e mais uma vez ameaçou o motociclista. Foi quando Cauan e José Otávio desceram da viatura já atirando.
Além das imagens das câmeras corporais dos policiais — o que a Polícia Militar paulista (PMESP) só cedeu à Polícia Civil mediante uma ordem judicial após quase dois meses —, a investigação obteve também o registro de uma câmera de segurança da unidade do McDonald’s em frente ao local da ocorrência.
Conforme identificou a investigação, a gravação da loja mostra que, ao avistar a viatura da Polícia Militar, Igor parou de correr na direção do motociclista e ficou imóvel. A vítima ainda pareceu jogar a faca no chão quando os policiais passaram a falar com ela, em seguida, a atirar.
Vídeo desmentiu versão de PMs de que impediram “injusta agressão”
O vídeo obtido pelo Metrópoles mostra que os agentes iniciaram os disparos sem tentarem dar voz de rendição a Igor e quando a vítima não oferecia risco a ambos, nem ao motociclista. Cauan, inclusive, já toma uma decisão antes mesmo de descer da viatura: “Espera aí que eu vou matar ele, eu vou dar tiro”, diz.
O registro desmentiu a versão dada pelos policiais até então, de que haviam feito uso proporcional da força. No boletim de ocorrência, relatado por um terceiro policial militar, que não presenciou os fatos, constava que Igor se “insurgiu contra o motociclista e a equipe de policiais militares”, o que teria obrigado Cauan e José Otávio a atirarem “no intuito de impedir a suposta injusta agressão”.
Um segundo vídeo revelado pelo site Metrópoles mostra que, após atirar, Cauan fez uma oração em voz alta pedindo para que a vítima não morresse. No mesmo registro, Igor aparece caído no chão, agonizando. “Não consigo respirar, eu não consigo respirar”, afirma o eletricista.
Igor foi socorrido ao Hospital Geral de Taipas, mas não resistiu. A vítima vivia com o pai, um idoso de 75 anos, e fazia uso de medicamentos para lidar com questões de saúde mental.
O que diz a SSP-SP
Além da Polícia Civil, a própria PM também investiga o caso, com um inquérito instaurado pelo 18º Batalhão de Polícia Metropolitano (18º BPM/M), no qual os dois policiais estão lotados. Os agentes só foram afastados do trabalho por ordem judicial.
À Ponte, a Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP), submetida ao governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), comunicou que a Corregedoria da PM acompanha o caso. “A Polícia Militar não compactua com excessos e desvios de conduta por parte de seus agentes”, afirmou.
Leia a íntegra do que diz a SSP-SP
O caso é investigado por meio de inquérito policial no Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), e por meio de Inquérito Policial Militar (IPM) no 18º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (18º BPM/M), com acompanhamento da Corregedoria. Os agentes estão afastados do serviço operacional por determinação judicial. A Polícia Militar não compactua com excessos e desvios de conduta por parte de seus agentes. Todas as imagens relacionadas à ocorrência, incluindo as captadas pelas câmeras corporais utilizadas pelos policiais, são rigorosamente analisadas para adoção das medidas cabíveis.
Leia a matéria original: Ponte Jornalismo
