Mortes em sequência assustam favela do Siri (SC)

Dez dias após adolescente ser morto em abordagem policial, outro jovem morreu e um terceiro foi baleado em operação em comunidade do norte de Florianópolis

Segundo moradores, jovem foi baleado na cabeça pela PM após implorar para não ser morto; locais registraram as marcas de tiro pela comunidade após a operação que deixou um morto e outro ferido, em 7 de abril | Foto: Arquivo pessoal

Em 7 de abril, policiais do 21º Batalhão de Polícia Militar (BPM) de Santa Catarina chegaram armados com fuzis à favela do Siri, no norte de Florianópolis (SC), por volta das 17h. Era horário de saída da creche, o que fez com que muitas mães e crianças presenciassem os militares circulando pelas ruas da comunidade. Momentos depois, foi possível ouvir tiros. Muitos tiros.

“Eu ouvi muito barulho de tiro, pessoas gritando e mães correndo com as crianças no colo”, relatou à Ponte uma moradora que não quis ser identificada por medo de represálias. “Uma amiga minha ficou apavorada porque estava com a neném dela no colo, e as balas passando por ela”, acrescentou.

Os disparos não foram dados a esmo. Eles atingiram dois jovens. Um deles, identificado por moradores como Nicolas, morreu na favela com um tiro na cabeça. O jovem, negro, tinha 29 anos.

A diarista Nize Ferreira, 37, soube naquela mesma tarde que o filho mais velho, Cristian Gabriel Ferreira Silva, 18, estava sendo levado para o hospital em uma ambulância. Desesperada, ela tentou acompanhar o jovem, mas conta ter sido impedida por policiais. Quando chegou à unidade de saúde, foi informada por um PM que o jovem “estava bem” e que não se sabia de qual arma havia partido o disparo que o atingiu.

“Mas eu tinha certeza que tinha sido tiro de fuzil, dos policiais, porque os moradores disseram que eram os únicos que estavam atirando”, diz Nize. “Foi só depois que o médico me confirmou que tinha sido mesmo uma bala de fuzil, que pegou na barriga dele, na lateral”.

“Eu não sei dizer por que fizeram isso”, completou. “Talvez porque ele correu, mas outras pessoas ali também correram por causa dos tiros. […] Acho que meu filho só não foi morto igual o Nicolas porque conseguiu, depois de baleado, entrar na casa de uma moradora”.

O dia em que Gustavo correu

A morte de Nicolas e o disparo contra Cristian Gabriel ocorreram dez dias depois que o adolescente Gustavo Maihoski de Souza, 17, foi morto por policiais militares do mesmo batalhão policial ali na favela. O crime de Gustavo, segundo o relato de moradores, foi correr ao ver uma viatura.

Era sábado, 28 de março, por volta das 17h30, quando uma viatura do 21º BPM entrou na comunidade pela Rua Ruth Pereira, a única via de acesso à favela. Quando alcançaram a Rua Floresta, os policiais viram três jovens que, segundo moradores, estavam desarmados.

O grupo passou a correr, algo que é comum, relataram moradores ouvidos pela Ponte. A motivação da fuga é o medo de abordagens violentas, algo frequente ali.

No meio da correria, o grupo teria se deparado com Gustavo, que até então participava de uma festa de aniversário, mas que também resolveu correr. Dias antes da morte, o jovem teria sido ameaçado de morte por policiais por já ter sido apreendido em um ponto de venda de drogas na comunidade, conforme contou à Ponte uma pessoa próxima da família.

Gustavo parou no quintal de uma casa na Servidão Lindomar Álvaro da Silveira, ainda dentro da favela. Ele teria dito a uma testemunha que se entregaria aos policiais. Pouco depois, os vizinhos ouviram os tiros.

“A PM voltou para buscar os outros”

Segundo os moradores, Nicolas e Cristian Gabriel eram os outros jovens que haviam escapado da abordagem em março. A polícia teria retornado ao local em busca deles.

“No dia em que o Gustavo foi morto, fugiram três para dentro do mesmo terreno. […] Dez dias depois, a polícia voltou para buscar os outros dois que correram. Um foi baleado e levado para o hospital, o outro morreu na hora”, afirma Carlos Eduardo Ferreira, 47, uma das lideranças comunitárias do Siri, conhecido como Cadu.

Segundo Cadu, no dia da operação, em abril, um drone sobrevoava a região das dunas da Praia dos Ingleses, que circundam parte da comunidade, horas antes do início dos disparos.

“Depois, os policiais se posicionaram em cima das dunas, parecia que estavam se preparando para algo, quando, de repente, entraram as viaturas pela frente [da comunidade], e os [PMs] que estavam nas dunas desceram atirando”, contou a liderança, conforme ouviu de moradores que testemunharam a ação naquela tarde.

“Alguns meninos saíram correndo para o meio do mato. O Nicolas subiu em cima do telhado de uma casa e, quando desceu, uma moradora que estava perto ouviu ele dizer: ‘Não me mata, não me mata’. Aí escutou os tiros”, seguiu.

O relato é corroborado por outra local ouvida pela reportagem e vídeos enviados à Ponte com relatos de moradores que presenciaram o momento em que Nicolas foi baleado com um tiro na cabeça. “Pessoas daqui ouviram ele pedir para não matar ele, mas mataram igual”, contou a moradora. Para ela, a polícia deveria cumprir seu papel de prender suspeitos, “não matar, e muito menos dessa forma, sob céu claro, com tantas mães e crianças na rua”.

Registros de gravações mostram moradores apontando o local onde Nicolas foi baleado pela PMSC, no fundo da casa de uma moradora: “pedi para não matarem ele, mas mataram assim mesmo” | Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Família nega que jovem estivesse armado

Em nota sobre a abordagem que deixou Nicolas morto, o 21º BPM afirmou que três suspeitos alvos dos agentes estavam armados e que os disparos ocorreram em resposta à “agressão letal” por parte do trio.

O 21º BPM divulgou ainda que, “após o confronto, dois suspeitos se separaram”. Um deles, que seria Cristian Gabriel, “adentrou uma residência, onde foi localizado, posteriormente ferido e em posse de um revólver, além de uma quantidade significativa de entorpecentes e dinheiro em espécie” (leia ao final do texto o posicionamento do batalhão na íntegra).

Nize, a mãe de Cristian, nega que o filho estivesse armado. “Os moradores que estavam perto [no momento dos disparos] falaram que [os policiais] pegaram ele sem nada na mão. Fora que nenhum dos policiais saiu ferido nesse dia, só os meninos. (…) Então, eu quero que comprovem que ele estava armado e atirando, como dizem”.

Ela também contou à Ponte que tentou, reiteradas vezes, visitar o filho no hospital, mas foi barrada por policiais em custódia do jovem. “Ele ficou mais de duas semanas internado e eu tentei de tudo [para vê-lo], mas não deixaram eu nem passar da porta”, contou. “Eu acho injusto isso, uma mãe não poder olhar e falar com o seu filho depois de tudo isso”.

Ainda segundo Nize, que até a publicação desta reportagem não tinha conseguido ver o filho na unidade prisional, Cristian Gabriel é réu primário e não tinha passagens anteriores pela polícia. “Meu filho é um menino bom, fazia de tudo para ajudar em casa, trabalhou como auxiliar de pedreiro, mas parou um tempo e, quando completou 18 anos, disse que ia se alistar no Exército”.

Questionada em diferentes ocasiões sobre o que levou à prisão de Cristian, a Polícia Civil de Santa Catarina (PCSC) confirmou o recebimento do pedido de informações, mas não retornou. O espaço segue aberto.

No Siri, ‘inocente vira bandido depois de morrer’

Não é de hoje que a comunidade convive com ações policiais violentas. Entre as denúncias recebidas pela Ponte, estão casos de invasões constantes por parte de policiais militares sem mandado judicial a casas de famílias, além de abordagens policiais abusivas dentro do território.

“A polícia generaliza todos os moradores como se todo mundo aqui fosse vagabundo. É assim o pensamento deles”, diz Cadu, uma das lideranças local.

“Nos casos de morte, a versão oficial da PM nunca será de que um inocente foi morto por engano, imperícia ou imprudência por parte dos policiais, mas que era mais um supostamente neutralizado em troca de tiros. E é aí que muito inocente é morto pela polícia e vira bandido depois de morrer”, acrescenta a liderança.

A outra moradora ouvida pela reportagem, sob condição de anonimato, afirmou: “Se tem alguém errado, eles têm que prender, mas judiam muito aqui ou já chegam atirando”. Ela também mencionou outros episódios de violência policial recentes, nos quais policiais militares quebraram o celular de moradores que não passaram a senha dos aparelhos durante abordagens.

“Só na última semana, soube que quebraram quatro aparelhos. (…) Muitos correm quando veem uma viatura porque apanham muito ou quebram o celular se não liberam a senha”.

O que dizem as autoridades

Procurada, a Secretaria de Estado da Segurança Pública de Santa Catarina (SSP/SC) solicitou que a reportagem encaminhasse os questionamentos diretamente à Polícia Militar e à Polícia Civil. Ambas as corporações, porém, não retornaram.

Também procurado com pedidos de posicionamento e esclarecimentos sobre a operação policial em abril, o 21º BPM afirmou, em nota, que a ação foi realizada “com o objetivo de coibir o tráfico de drogas e o crime organizado na região”.

Sobre as denúncias de abuso policial e invasão de domicílios na comunidade do Siri, o 21º BPM alegou não haver “qualquer evidência de veracidade” sobre os atos.

Leia nota na íntegra

Durante a incursão, três indivíduos armados fugiram em direção às dunas e passaram a efetuar disparos de arma de fogo contra as equipes policiais, que responderam à agressão letal.

Após o confronto, dois suspeitos se separaram: um deles adentrou em uma residência, onde foi localizado posteriormente ferido e em posse de um revólver, além de uma quantidade significativa de entorpecentes e dinheiro em espécie.

O segundo homem, que possuía vasto histórico criminal e encontrava-se foragido do sistema prisional, tentou fugir por residências da região. Após nova tentativa de abordagem, houve outro confronto, o suspeito foi alvejado e veio a óbito. Com ele foi apreendida uma pistola equipada com laser e lanterna acoplada.

O terceiro envolvido não foi localizado, apesar das buscas realizadas na região.

A ocorrência contou com o apoio do Batalhão de Operações Especiais e o Batalhão de Choque. O atendimento às vítimas foi prestado pelo SAMU e pelo Corpo de Bombeiros.

Todo o material apreendido foi encaminhado à Central de Plantão Policial para os procedimentos legais cabíveis.

Quanto à invasão em residências sem mandados, não há qualquer evidência de veracidade e a Polícia Militar não realiza esse tipo de abordagem sem ordem judicial ou flagrante delito.

Leia a matéria original: Ponte Jornalismo