Moradores do Moinho ainda aguardam moradia definitiva

Entre escombros, ratos e escorpiões, famílias que seguem na favela do Moinho contestam promessas de habitação digna um ano após acordo entre os governos estadual e federal

Atual vista da favela do Moinho, no centro de São Paulo, onde centenas de casa foram demolidas e dezenas de famílias seguem vivendo enquanto aguardam moradias prometidas pelos governos federal e estadual | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Há um ano, em 15 de maio de 2025, os governos federal e estadual de São Paulo pactuaram um acordo inédito que prometia garantir moradia digna e gratuita às mais de 800 famílias da favela do Moinho, no centro da capital paulista. O anúncio do plano foi celebrado à época com alívio pelos moradores da comunidade, que ao longo dos meses anteriores enfrentaram repressões policiais frequentes em meio à tentativa de implementação, pela gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), de um plano de remoção das famílias da região para a construção de um parque e uma estação de trem no local.

Hoje, mais de três décadas depois do início da ocupação do terreno que se tornaria a maior favela do centro de São Paulo, quase todas as construções da comunidade, entre moradias, comércios e espaços de convívio, estão demolidas. Restaram ali poucas dezenas de famílias, que passaram a viver entre os escombros das demolições, com a proliferação de ratos e escorpiões, segundo relatado por moradores à Ponte

“Hoje estou só com duas vizinhas, o resto já saiu tudo”, diz Leidivânia Domingas, de 31 anos, uma das últimas moradoras do Moinho, para onde se mudou em 2014. “Muitas casas foram demolidas e foram ficando os entulhos. Agora, estamos com medo de entrar escorpião em casa, como já aconteceu em muitas daqui, e teve até criança picada”, conta. “À noite você vê rato demais, coisa que eu nunca vi na vida”, acrescenta ela, que mora com o marido, que trabalha como limpador de vidros, e dois filhos pequenos, um de 10 anos e uma menina de 2.

Apesar do esvaziamento da comunidade, mais de 40% das 854 famílias cadastradas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) como aptas a receber uma moradia definitiva pelo acordo entre os governos Lula (PT) e Tarcísio, ainda não conseguiram se mudar para os imóveis prometidos. Dessas, a maior parte saiu do Moinho ao longo do último ano e hoje vive em outros bairros ou cidades com um auxílio-moradia de R$ 1,2 mil por mês. Já um grupo bem menor de famílias ainda aguarda dentro da comunidade.

“Muitos daqui que eu conheço ainda não estão no apartamento que prometeram”, contou Leidivânia. “Eu escolhi me manter aqui porque não quero ficar na metade do caminho igual tanta gente está, e ainda com receio de cortarem ou atrasarem o auxílio-moradia antes de se mudarem de vez”, acrescentou.

Leidivânia, uma das moradoras que seguem no Moinho enquanto aguardam a liberação de moradias definitivas prometidas pelo poder público | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Em nota divulgada em 22 de abril, o governo de São Paulo afirmou que, até ali, 738 imóveis já haviam sido demolidos no Moinho e mais de 800 famílias estavam vivendo “em novos espaços com segurança e dignidade”. Sobre as demolições, divulgou que a medida “garante a integridade da área, evitando reocupações, e a segurança para as famílias e trabalhadores que circulam pelo local”.

Diferente do informado pela gestão estadual, a realidade de moradores vivendo entre escombros, entulhos e ratos no terreno do Moinho foi testemunhado pela reportagem, que esteve na comunidade no fim de abril e conversou com famílias que seguem ali. 

Escombros de casas demolidas no Moinho, no centro de São Paulo, onde dezenas de famílias seguem vivendo enquanto aguardam moradias prometidas pelos governos federal e estadual | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Da sala de sua casa, Leidivânia contou à Ponte que, há quase oito meses, deu entrada no contrato de aquisição de um apartamento de dois quartos e 42 m², em Casa Verde, bairro na zona norte de São Paulo. Ela e a família, contudo, ainda aguardam pela liberação do pagamento do imóvel pela Caixa Econômica Federal. 

“No começo, diziam que, se as documentações tivessem certas, em no máximo 15 dias já estaríamos na moradia, só que era tudo propaganda enganosa”, relatou. “Antes, a CDHU dizia que a Caixa não estava liberando o dinheiro. Depois, a Caixa disse que, no meu caso, faltava a CDHU pagar a parte deles. Quando fui reclamar com a CDHU, disseram que no mesmo dia tinham liberado. Agora, a Caixa diz que o contrato está no cartório, mas ainda não me passaram uma previsão”.

A vizinha de Leidivânia, Reinara Gomes, 40, mãe de três meninas e moradora do Moinho há nove anos, enfrenta a mesma espera. Ela diz que também segue há meses aguardando a confirmação da Caixa para se mudar com as filhas e o marido, que é carregador de mercadorias, para um apartamento de 39m² no bairro da Mooca, na zona leste paulistana. “É só o que falta para a gente mudar”, afirma.

Procurada, a Caixa não comentou a situação específica de Leidivânia e Reinara, mas afirmou que “parte das famílias ainda se encontra em fases operacionais anteriores à assinatura dos contratos”. Em nota, o banco afirmou que, até o dia 13 de maio, 124 famílias do Moinho vinculadas à linha de Compra Assistida do Programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, já haviam assinado seus contratos e estavam “aptas à mudança para os novos imóveis adquiridos no âmbito do programa”. Já a CDHU, em resposta a questionamentos da Ponte, afirmou em nota, na mesma ocasião, que 480 famílias da comunidade já estão em moradias definitivas (leia ao fim do texto a íntegra de ambos posicionamentos).

As moradoras contaram ainda que, desde o início das remoções, presenciaram e foram alvos de abordagens por parte de policiais e funcionários da CDHU para que aceitassem o auxílio-moradia e deixassem suas casas no Moinho. “Antes, a polícia passava pelas casas e ficava perguntando por que ainda estávamos aqui e não aceitamos o auxílio”, conta Leidivânia.

Reinara contou ter se negado a aceitar o auxílio-moradia e sair do Moinho porque as filhas estudam em colégios próximos dali e por ser difícil encontrar lugares provisórios no centro da capital, para cinco pessoas, por R$1.200 mensais. Segundo a moradora, há algumas semanas, funcionários da CDHU apresentaram um papel a ela, que dizia que sua família teria até 30 dias para deixar a comunidade, mesmo sem a confirmação da Caixa sobre a nova moradia. “Me senti acuada”, disse. 

Nos últimos meses, segundo Leidivânia, a pressão para a saída dos moradores tem partido principalmente de funcionários da CDHU. “É o que mais tem aqui hoje”, comentou. “Ficam o dia todo pressionando, trazendo papel pras pessoas aceitarem o auxílio e saírem logo daqui”, seguiu sobre a abordagem dos agentes estaduais. “Mas eles precisam entender que ninguém mais está se recusando a sair daqui. O problema é que não estão pagando os imóveis que prometeram e querem que a gente saia sem garantia”, ressaltou.

Funcionários da CDHU circulam pelo Moinho durante o processo de remoção de moradores e demolição de casas na comunidade, no centro de São Paulo. | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Questionada sobre os relatos, a CDHU afirmou em nota que “a saída de todas as famílias é iminente” e que equipes técnicas do órgão “permanecem em contato com esses moradores para prestar apoio e acompanhar o cronograma de mudanças, que é realizado e custeado pelo Estado”.

‘Só saio daqui sem casa morto’

Durante a visita da Ponte ao Moinho, a reportagem conheceu Roberto Santos de Jesus, 45.  Conhecido na comunidade como “Pirata” por ter a visão de um dos olhos comprometida, ele contou que mora ali há mais de 15 anos, mas não foi cadastrado pela CDHU como morador da comunidade. 

Roberto relatou que fazia bicos de pedreiro antes de ficar desempregado e dividia uma casa no Moinho com o irmão gêmeo, que faleceu no ano passado por problemas de saúde. O nome do familiar, Alberto Santos de Jesus, consta na lista de pessoas cadastradas como moradores locais pela CDHU até novembro passado; o de Roberto, não, conforme apurado pela reportagem.

Em um relato breve e emocionado, Roberto contou que seu irmão havia aceitado o auxílio-moradia oferecido pela CDHU para que os dois aguardassem pela residência definitiva fora da comunidade. Após a morte do irmão, porém, o auxílio foi cortado e, quando retornou à comunidade, ele diz ter encontrado a casa onde viviam demolida.

legenda: Terreno onde ficava a casa em que Roberto Santos de Jesus, conhecido como “Pirata”, morava com o irmão gêmeo na Favela do Moinho. Após a morte do familiar, ele afirma que perdeu o auxílio-moradia e encontrou o imóvel demolido ao retornar à comunidade | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Há meses, ele apresenta à CDHU documentos para tentar provar que reside há mais de uma década no Moinho e conseguir que o cadastro do irmão falecido passe para o seu nome, mas recebeu reiteradas negativas por parte de funcionários do órgão estadual.

“Eu só saio daqui sem uma casa morto”, disse Roberto à reportagem. “Eu moro aqui há 15 anos, ajudei a construir as casas dessa comunidades, todo mundo me conhece. (…) Se querem nos tirar daqui para pegar o terreno, que coloquem cada um em uma moradia”, concluiu. 

Leidivânia afirma que conhece “Pirata” desde que ela se mudou para o Moinho, em 2014, e confirma que ele e o irmão gêmeo falecido moravam juntos em uma casa da comunidade até o ano passado. 

Questionada pela reportagem sobre o caso de Roberto e o motivo pelo qual ele não foi cadastrado como morador do Moinho, a CDHU não se manifestou.

‘Lá fora, é outro mundo’

Um dos moradores que a reportagem presenciou sendo abordado por funcionários da CDHU na comunidade é Roberto Pereira de Paula, 77. Ele, que foi uma das primeiras pessoas a se mudar para o Moinho, há mais de três décadas, atualmente sobrevive de bicos esporádicos como ajudante geral e com a ajuda de vizinhos como Leidivânia, que serve refeições a ele diariamente. 

“Meus filhos casaram, minha esposa morreu, e até os cachorros se foram. Agora, querem que eu esvazie aqui e vá morar onde me derem, mas ainda não sei para onde eu vou”, disse Roberto à Ponte.

O idoso contou como tem se sentido desde a saída da maioria dos moradores do Moinho: “Ficou tudo estranho e sem graça aqui, sumiram as pessoas, e a gente sobrou, deixou de ser importante”, afirma. “Daqui a ali, eu brincava que enchia o saco de tanto comprimentar os vizinhos, conversar, pegar na mão. Agora, a gente e nada é a mesma coisa”.

A incerteza sobre como será a vida fora do Moinho também tem afetado as vizinhas Leidivânia e Reinara. “Aqui era uma ajudando a outra”, afirmou Reinara. “Quando um dos meus filhos ficava doente, eu pedia ajuda de outras mães para levarem o outro à escola. Quando outras mães precisavam, eu levava para elas. E era assim, todo mundo se conhecia e se ajudava”, completou Leidivânia. 

Para as duas, é da convivência com os vizinhos e amigos que fizeram na comunidade que sentirão mais falta. “Antes, aqui era um morador protegendo o outro. Você podia sair e deixar sua porta aberta que ninguém entrava, ninguém mexia em nada. O medo era mais da polícia fazer alguma coisa do que de qualquer morador”, lembrou Leidivânia sobre o dia a dia na comunidade até o início do ano passado.

Moradores se reuniram, em julho de 2018, para assistir à final da Copa do Moinho, um dos muitos eventos culturais e esportivos organizados localmente ao longo das mais de três décadas de existência da comunidade | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

“Mas, desde que começaram as demolições, parece que o pessoal ficou acelarado, nervoso, com medo de sair de casa. […] A gente sai porque precisa, mas tem que voltar às pressas porque não sabe o que a polícia pode fazer ou até alguém de fora”, completou. 

Ainda no início do ano passado, quando o governo estadual anunciou seu plano de “valorização imobiliária” do centro de São Paulo, que incluía remover todas as famílias do Moinho em troca de moradias financiadas por elas próprias por até 30 anos, a associação de moradores da comunidade propôs uma reurbanização e regularização fundiária do terreno, pertencente à União.

Com a ajuda de advogados e urbanistas voluntários, o grupo buscava manter as famílias unidas na comunidade. O pedido, porém, foi negado pela Defesa Civil paulista, que justificou a negativa “devido à configuração de risco” para moradia no local.

Ao lembrar das vezes que precisou sair da comunidade ao longo dos mais de 30 anos em que viveu no Moinho, Roberto de Paula afirmou: “Lá fora, é outro mundo, a gente é malquisto para caramba. Quando eu tomava café na rua e passava daquela entrada para fora, as pessoas ficavam até longe de mim”.

“Lá fora, é outro mundo”, repetiu Roberto, “totalmente diferente daqui, só convivendo para saber”, concluiu o idoso, que ainda não sabe onde vai morar e quem serão seus futuros vizinhos. 

Leia abaixo a íntegra do posicionamento da CDHU

O Governo de São Paulo, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação e da CDHU, completou um ano do reassentamento das famílias da Favela do Moinho, com 932 mudanças já realizadas, considerando atendimentos habitacionais e comércios. Ao todo, 480 famílias já estão em moradias definitivas.

Como acordado com o Ministério das Cidades e com a comunidade, aquelas famílias que indicassem imóveis que não estivessem prontos ou que tivessem preferência por Carta de Crédito Individual sem a apresentação imediata de imóvel definitivo, seriam destinadas para atendimento temporário por meio de auxílio moradia no valor de R$ 1,2 mil mensais. No ato da mudança, as famílias recebem caução de R$ 2,4 mil.

As mudanças das famílias que permanecem na área são de responsabilidade da Caixa Econômica Federal. No entanto, equipes técnicas da CDHU permanecem em contato com esses moradores para prestar apoio e acompanhar o cronograma de mudanças, que é realizado e custeado pelo Estado. A saída de todas as famílias é iminente, uma vez que a desocupação total do terreno já foi estabelecida no acordo com a União.

Leia abaixo a íntegra do posicionamento da Caixa Econômica Federal

A CAIXA informa que, até o momento, 124 famílias vinculadas ao PMCMV Compra Assistida – Favela do Moinho já assinaram seus contratos e estão aptas à mudança para os novos imóveis adquiridos no âmbito do programa.

Em relação às famílias que ainda permanecem no local, esclarecemos que a gestão social e o acompanhamento das ocupações e desocupações não integram as atribuições do agente financeiro, sendo esse acompanhamento realizado pelos entes públicos responsáveis pela condução local da política habitacional e social.

A operacionalização do PMCMV Compra Assistida observa etapas e procedimentos previstos na regulamentação do programa, incluindo análise documental dos beneficiários, avaliação de engenharia dos imóveis indicados, verificação jurídica e demais ritos necessários à contratação com recursos do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR). Dessa forma, parte das famílias ainda se encontra em fases operacionais anteriores à assinatura dos contratos.

Leia a matéria original: Ponte Jornalismo