Letalidade policial piora no Rio e atinge seis vezes mais vítimas negras

Relatório da Rede de Observatórios da Segurança mostra que polícias fluminenses mataram ao menos 800 pessoas em 2025. Assim como em outros oito estados avaliados no estudo, maioria das vítimas no Rio é de jovens de pele preta ou parda

Massacre do Alemão e da Penha marcou ano com aumento da letalidade policial no Rio | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A letalidade policial no estado do Rio de Janeiro piorou em 2025, ano em que o Supremo Tribunal Federal (STF) deu por encerrada a chamada ADPF das Favelas, uma ação judicial iniciada justamente para conter as mortes cometidas pelas polícias fluminenses.

Os óbitos atingiram principalmente pessoas negras, seja da pele preta ou parda, sob um risco seis vezes maior de serem alvo de policiais no estado do que vítimas brancas.

Esse cenário aparece descrito na edição de 2026 do relatório Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã, produzido pela Rede de Observatórios da Segurança. O documento, adiantado à Ponte, foi lançado pela entidade nesta quarta-feira (1º/7).

Houve ao menos 800 mortes cometidas pelas polícias no estado do Rio em 2025. Entre as vítimas que tiveram a cor de pele identificada nos registros oficiais, 88,6% eram negras, embora pretos e pardos correspondam a apenas 57,8% da população local.

Para cada 100 mil habitantes do Rio, houve uma taxa de 6,3 mortes de pessoas negras cometidas pelas polícias, o que o estudo identificou ao obter dados com pedidos feitos via Lei de Acesso à Informação (LAI).

‘Narcoterrorismo’ reflete normalização da violência no Rio, aponta relatório

Na comparação com o ano anterior, houve uma alta de 13,8% na letalidade policial no estado do Rio de Janeiro, ainda conforme destaca o levantamento. Em 2024, ela havia tido uma mínima histórica, com 703 casos, o que era atribuído a uma série de medidas tomadas pelo STF no âmbito da ADPF das Favelas, formalmente tratada como a Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental 635.

Desde 2019, quando a ação foi ajuizada pelo PSB, o relator dela, o ministro Edson Fachin, havia, entre outras coisas, restringido operações policiais e determinado o uso de câmeras corporais pelas polícias no estado.

Já em abril de 2025, no entanto, houve uma reviravolta: o STF encerrou a ADPF ao entender que não havia mais um “estado de coisas inconstitucional” na segurança pública do Rio.

Na decisão que concluiu a ação, a corte ainda determinou a elaboração de um plano para “recuperar territórios”, o que especialistas ouvidos pela Ponte à época denunciaram ser um retrocesso, por reforçar um estigma de guerra às drogas e de necessidade de ocupação militarizada das comunidades.

Sete meses depois, em novembro de 2025, o Rio de Janeiro registrou a operação policial mais letal da história do país, ocasião em que 121 pessoas foram mortas no Massacre do Alemão e da Penha, entre policiais e civis.

Agora no estudo Pele Alvo, a Rede de Observatórios da Segurança destacou a operação, pontuando que a necropolítica em curso no estado do Rio passou a ser sustentada também por um discurso de combate ao que a extrema-direita tem chamado de “narcoterrorismo”.

“A utilização do termo ‘narcoterroristas’, assim como a associação desses indivíduos à chamada ‘chacina do Alemão’, reflete a normalização da violência extrema como elemento estruturante da segurança pública fluminense. Ao mesmo tempo, a caracterização recorrente do Rio de Janeiro como um ‘narcoestado’ funciona como uma admissão institucional da incapacidade de formular políticas eficazes”, escrevem os autores do relatório.

Eles também relembram que o estado passou por uma crise sucessória iniciada em 2025: o então vice-governador Thiago Pampolha (União Brasil) se tornou conselheiro do Tribunal de Contas estadual (TCE-RJ); já o governador Cláudio Castro (PL) renunciou ao cargo meses depois; o presidente da Assembleia Legislativa local, Rodrigo Bacellar (União Brasil), se licenciou da função após ter sido preso; e a cadeira do governo restou para o presidente do Tribunal de Justiça, o desembargador Ricardo Couto de Castro.

“Nesse sentido, a retomada do crescimento das mortes após a redução em 2024 expressa a consolidação da violência letal como política pública em um Estado fragilizado”, analisam.

Letalidade policial na Bahia afeta principalmente os jovens

O relatório da Rede de Observatórios da Segurança também traz, assim como em edições anteriores, dados da letalidade policial de outros oito estados, obtidos igualmente com pedidos via LAI. A Bahia, governada por Jerônimo Rodrigues (PT), é o estado que tem os piores índices.

No acumulado dos últimos sete anos, período em que o relatório tem sido publicado anualmente, as polícias baianas mataram 8.743 pessoas. Só em 2025, foram 1.570 mortes.

Entre as vítimas do ano passado com a cor de pele identificada, 93,9% eram negras, em um estado no qual 79,7% da população é preta ou parda. Houve uma taxa de 11 negros mortos pelas polícias para cada 100 mil habitantes, mais que o dobro da média geral dos estados analisados (4,9).

Ainda na Bahia, o relatório identifica que mais de mil mortes envolveram jovens com idades entre 18 e 29 anos. Já 9,7% das vítimas, o equivalente a uma em cada dez, eram apenas adolescentes.

“Trata-se de uma geração inteira atravessada pela precarização da vida, pela ausência de direitos e pela presença quase exclusiva da violência estatal em seus territórios”, escrevem os autores do estudo.

Fonte: Pele Alvo/Reprodução

SP enfraquece controle das polícias, e PE tem pior disparidade racial

Depois da Bahia, o pior estado foi o de São Paulo, cuja letalidade policial a Ponte acompanha com reportagens mensais e noticiou ter sido, em 2025, a pior letalidade dos últimos seis anos.

“Para muitos desses jovens, a segurança pública é a única política que chega às suas comunidades. Ainda assim, não se materializa como garantia de proteção e cidadania, mas como ocupação militarizada, incursões policiais e violações de direitos. Esse formato perpetua um projeto histórico racista e escravocrata que define quais vidas devem ser protegidas e quais podem ser descartadas.”

O relatório Pele Alvo repete que as polícias paulistas mataram 834 pessoas no ano passado, entre as quais 64,6% eram negras, embora apenas 40,9% da população no estado seja preta ou parda.

Os autores do estudo destacam que o uso da tecnologia em São Paulo, alardeada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) com o programa Muralha Paulista e pelo prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), com o Smart Sampa, não significou um melhor controle do uso da força.

“O discurso oficial do governo estadual permanece centrado na repressão, acompanhado pelo desinvestimento na prevenção e pelo enfraquecimento dos mecanismos de controle”, analisam.

“De um lado, indicadores da SSP-SP [Secretaria da Segurança Pública paulista] apontam queda em crimes relevantes, como furtos (6,3%), roubos (18,8%) e latrocínios (mais de 50,0%). De outro, consolida-se uma política baseada na violência letal, provando que a letalidade responde menos à variação da criminalidade e mais a uma lógica de gestão da vulnerabilidade. Quando parte significativa das mortes ocorre fora de confrontos clássicos, a violência deixa de ser exceção e se converte em regra”, concluem.

Entre os outros estados analisados pela Rede de Observatórios da Segurança, Pernambuco se destacou negativamente por ter tido a pior disparidade racial nas mortes cometidas pelas polícias: o risco de negros serem mortos foi 11 vezes maior que o de brancos.

Também em 2025, o estado teve 89 mortes cometidas pelas polícias, entre as quais 94,4% das vítimas tinham a pele preta ou parda. Praticamente sete de cada dez casos (71,9%) envolveu pessoas de até 29 anos.

Fonte: Pele Alvo/Reprodução

Discurso da violência é usado como suposta solução para segurança

No Ceará, foram 200 mortes cometidas pelas polícias em 2025, o pior índice em seis anos. O perfil comum das vítimas também foi de pessoas negras (87,1%). “Insistimos na compreensão de que a abordagem policial é seletiva, ou seja, muda a depender do lugar onde acontece e, principalmente, a depender de quem está sob suspeita”, narram os autores do estudo.

No Piauí, as polícias deixaram 20 vítimas fatais no ano passado. Foi o único estado avaliado que registrou uma redução de um ano a outro (-16,67%). Ainda assim, se manteve a disparidade racial, com 85% dos mortos de pele preta ou parda.

Já no Pará, 93,3% das pessoas mortas pelas polícias em 2025 eram pessoas negras. Ao todo, a letalidade policial retirou 632 vidas no estado. Os autores do relatório avaliam que nem mesmo a atenção proporcionada pela COP30, como ficou conhecida a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, minimizou o problema.

“Em Belém, vitrine internacional da COP30, foram registradas 99 mortes por intervenção policial, tornando-se o município com maior número absoluto de vítimas no estado. O dado revela uma contradição profunda entre a imagem sustentável projetada ao exterior e a permanência de práticas de segurança marcadas pela letalidade nas periferias”, escrevem.

Também na região Norte, o estado do Amazonas foi o que teve maior proporção de negros entre as vítimas fatais das polícias: 96% dos 43 casos registrados em 2025. A maior parte dos óbitos ocorreu no interior (62,8%), o que indica uma mudança na dinâmica da letalidade, segundo o relatório.

Por fim, o estado do Maranhão teve 142 mortes cometidas pelas polícias no ano passado, o que também atingiu principalmente pessoas negras (92,2% dos casos com dados detalhados). A disparidade racial pode ser ainda maior, uma vez que 54,9% dos registros sequer mencionavam a cor da pele da vítima.

Na soma dos nove estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança, foram 4.330 mortes cometidas pelas polícias em 2025, o que representou um aumento de 6,4% em relação ao ano anterior. Ao menos 86,3% de todas essas vítimas (3.104) eram pessoas negras. A maioria tinha até 29 anos (64,8%).

Para os autores do estudo, o último ano demarcou uma alavancagem do discurso da violência como uma suposta solução para o campo da segurança pública, o que deve ser usado nas eleições deste ano.

“Assim, compreender a segurança pública brasileira exige reconhecer que as suas permanências não são resquícios ou heranças do passado, tampouco resultado de uma inevitabilidade de origem, mas parte ativa de um processo continuamente atualizado de gestão desigual da vida e da violência, imbricando Estado, política e crime”, concluem.

Leia a matéria original: Ponte Jornalismo