Polícias mataram 28 pessoas na região litorânea no primeiro trimestre. É o terceiro pior patamar em ao menos 14 anos. No começo do ano passado, com o governo Tarcísio pressionado por casos de violência policial, Baixada registrou 12 mortes

A letalidade policial piorou no estado de São Paulo no começo deste ano, puxada por um maior número de mortes na Baixada Santista. No primeiro trimestre, a região passou pela chamada Operação Verão, que consiste em um aumento do efetivo da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) no litoral paulista e que já havia causado um recorde de mortes na Baixada em 2024.
Entre janeiro e março de 2026, houve 178 mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP) no estado. Na comparação com o mesmo período do ano passado, com 163 casos, houve uma piora de 9%.
Especificamente na Baixada Santista, composta por Santos e outros oito municípios vizinhos, as polícias mataram 28 pessoas no trimestre inicial deste ano. Tratou-se do terceiro pior patamar para o período em ao menos 14 anos. Em 2025 inteiro, haviam sido 49 óbitos. No primeiro trimestre do ano passado, foram 12 casos — ou seja, houve uma disparada de 133% na letalidade na região.
O cenário foi identificado pela Ponte a partir de dados divulgados ao final do último mês pela própria Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP). A pasta é chefiada pelo secretário Osvaldo Nico e está submetida ao governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Baixada teve queda na letalidade com Tarcísio sobre pressão
O trimestre inicial de 2025, com o menor patamar de mortes na Baixada Santista para o período em 11 anos, havia sido marcado pela intensa pressão pública contra o governo Tarcísio em função de casos de letalidade policial com forte apelo midiático no final do ano anterior.
Em novembro de 2024, a PMESP havia matado o menino Ryan da Silva Andrade dos Santos, de quatro anos, em Santos, e o estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta, de 22 anos, em São Paulo. Naquele mesmo mês, um policial foi flagrado jogando um homem de cima de uma ponte na capital.
O começo de 2025 teve então um recuo no número de mortes e também nos discursos de Tarcísio. O governador, que até então endossava o uso da força policial, dizendo que entidades de defesa de direitos humanos poderiam “ir na ONU, na Liga da Justiça, no raio que o parta”, passou a dizer que “estava completamente errado” ao ter se mostrado contrário à adoção de câmeras corporais.
Em um relatório do ano passado, o Fórum Popular de Segurança Pública e Política de Drogas de São Paulo (FPSPPDSP) avaliou, no entanto, que o menor número de MDIP no primeiro semestre não indicava uma melhora estrutural da atuação policial, mas apenas a reversão parcial de uma excessiva piora tida nos anos anteriores — entre 2023 e 2024, as operações Escudo e Verão, tidas como ações de vingança mobilizadas pela morte de policiais, mataram, juntas, 84 pessoas na Baixada.
A Operação Verão mais recente teve início em 15 de dezembro do ano passado e se estendeu até 1º de março deste ano. O governo Tarcísio a anunciou como a maior da história, tendo mobilizado 4 mil policiais para atuarem no litoral paulista, especialmente na Baixada.
À época em que a ação teve início, a Ponte mostrou que moradores já temiam uma disparada da letalidade policial na região, o que se confirmou agora. Mesmo às vésperas da operação, dois jovens foram mortos em Santos pelas Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), em um caso com indícios de terem se tratado de execuções, conforme relataram vizinhos.
Operação Verão sinaliza segurança baseada em confronto, diz especialista
Para a advogada Gabriella Arima, integrante do FPSPPDSP e da Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas, a Operação Verão 2025/26 foi responsável direta pelo aumento da letalidade na Baixada, assim como o enfraquecimento de mecanismos de controle da atividade policial pela gestão Tarcísio.
“Ela consolidou um modelo de segurança pública baseado na saturação de tropa e na lógica do confronto, enviando unidades de elite para territórios vulneráveis com uma retórica de revanche. O resultado é matemático: mais fuzis em áreas adensadas, sob um comando que valida a força letal, geram pilhas de corpos que já conhecemos o perfil, quase todos jovens, quase todos negros”, avalia.
Entre as ocorrências do primeiro trimestre deste ano, todas as vítimas da Baixada eram homens, em sua maioria negros (68%), seja de pele parda (17 deles) ou preta (dois), e jovens, especialmente com idades entre 18 e 35 anos (21 casos). Esse padrão se repetiu se considerados os dados de todo o estado.
“[Isso] revela que a seletividade racial da abordagem policial permanece intacta e operante. A polícia mata onde o Estado se ausenta em serviços e se faz presente apenas pelo braço armado”, diz Gabriella. “Isso indica que a suposta paz social está sendo buscada através da eliminação física de um perfil específico de cidadão, e não pelo fortalecimento das instituições de justiça e nem pela criação de políticas públicas de acesso a direitos básicos e que diminuam a desigualdade social.”
Comparação com homicídios indica uso abusivo da força
Todas as mortes ocorridas na Baixada no primeiro trimestre foram cometidas pela Polícia Militar. Já se considerado todo o estado, a PMESP respondeu por 93% dos casos (166 deles), e a Polícia Civil, por 12.
Se levados em conta apenas os registros de março deste ano, houve uma queda no número de mortes cometidas pelas polícias na comparação com o mesmo mês do ano passado. Na Baixada, houve um recuo de seis para cinco casos. Em todo o estado, o número passou de 71 para 47 registros.
Ainda assim, há uma indicação de uso abusivo da força policial se comparada a letalidade policial no estado com o número de homicídios dolosos ocorridos em março de 2026, uma das formas que a literatura especializada em segurança pública utiliza para dimensionar a violência policial.
Estudos do sociólogo Ignácio Cano consideram que a proporção razoável é de até 10% de mortes cometidas pelas polícias em relação ao total de homicídios, enquanto o pesquisador Paul Chevigny sugere que índices maiores que 7% seriam considerados abusivos.
Em março deste ano, 240 pessoas foram vítimas de homicídios dolosos. Se somado isso aos casos de MDIP do mesmo mês, as forças de segurança protagonizaram 16% das mortes violentas no estado. Já levando em consideração todo o trimestre, as MDIP corresponderam a 22%.
O que dizem as autoridades
A Ponte pediu explicações à Secretaria da Segurança Pública paulista sobre o aumento da letalidade policial na Baixada Santista, questionando ainda em que medida a Operação Verão influenciou nessa piora.
Em resposta, a pasta encaminhou uma nota na qual não respondeu especificamente aos questionamentos levantados. “A atual gestão no Estado de São Paulo intensificou o enfrentamento à criminalidade violenta e organizada, com a realização de operações de alta complexidade e risco, o que influencia diretamente o tipo de ocorrência enfrentada pelas equipes”, argumentou a SSP-SP.
“A SSP mantém ações contínuas para reduzir a letalidade e responsabilizar desvios de conduta e investiga com rigor, por meio das Polícias Civil e Militar, todas as ocorrências com mortes decorrentes de intervenção policial (MDIPs)”, escreveu também a pasta, que ainda deu destaque à adoção de câmeras corporais no estado e à redução de parte dos indicadores criminais, como roubos e latrocínios.
A Ponte ainda pediu uma manifestação do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), cujo rol de atribuições constitucionais inclui o controle externo das polícias. Não houve retorno até aqui.
Leia a íntegra do que diz a SSP-SP
A atual gestão no Estado de São Paulo intensificou o enfrentamento à criminalidade violenta e organizada, com a realização de operações de alta complexidade e risco, o que influencia diretamente o tipo de ocorrência enfrentada pelas equipes. Em decorrência das ações permanentes contra o tráfico, as organizações criminosas e o porte ilegal de armas, no primeiro trimestre de 2026 São Paulo registrou os menores índices de homicídios, latrocínios e roubos em geral dos últimos 26 anos. Somente nos três primeiros meses do ano, 55,4 mil criminosos foram presos ou apreendidos e 3,1 mil armas de fogo foram apreendidas em decorrência.
A SSP mantém ações contínuas para reduzir a letalidade e responsabilizar desvios de conduta e investiga com rigor, por meio das Polícias Civil e Militar, todas as ocorrências com mortes decorrentes de intervenção policial (MDIPs). As corregedorias das instituições, o Ministério Público e o Poder Judiciário acompanham todos os casos. Desde 2023, mais de 1,3 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos das corporações.
A pasta também produz ações permanentes voltadas ao aperfeiçoamento do trabalho policial e à redução da letalidade, com revisão de protocolos operacionais, capacitação dos agentes e uso de tecnologia. Os investimentos em equipamentos de menor potencial ofensivo, como espargidores, bastões retráteis e armas de incapacitação neuromuscular, foram ampliados e superaram R$ 27,8 milhões na aquisição de mais de 3.500 unidades desse tipo.
O Estado é referência em transparência e controle, com o uso de Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) e monitoramento em tempo real das ações policiais. O total de equipamentos está sendo ampliado para 15 mil, representando aumento de 48,1% em relação aos contratos firmados na gestão anterior. Programas como o Muralha Paulista integram tecnologia, inteligência e bancos de dados para aumentar a eficiência das ações e reduzir a necessidade do uso da força. Atualmente, 610 municípios mostraram interesse na adesão desta política pública, sendo 205 já integrados. São mais de 125,5 mil câmeras interligadas e mais de 70% da população paulista coberta pelo sistema.
Leia a matéria original: Ponte Jornalismo
