Com investimentos bilionários e laboratório de tecnologias de monitoramento, polícia migratória de Trump se consolidou como infraestrutura nacional para captura, detenção e deportação

O Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (United States Immigration and Customs Enforcement), o ICE, é uma agência vinculada ao Departamento de Segurança Interna (Department of Homeland Security – DHS). Foi criado em 2003 da fusão dos componentes de investigação e de fiscalização interna do antigo Serviço de Alfândega dos Estados Unidos e do Serviço de Imigração e Naturalização. O ICE opera por meio de quatro diretorias: Homeland Security Investigations (HSI), Enforcement and Removal Operations (ERO), Office of the Principal Legal Advisor (OPLA) e Management and Administration (M&A).
O orçamento-base solicitado para o ICE, em 2026, é de US$11,3 bilhões, com cerca de 21.808 postos de trabalho. A esse valor soma-se o reforço extraordinário aprovado pelo Congresso por meio da H.R. 1 (House Resolution/Bill nº 1), conhecida como One Big Beautiful Bill Act, o grande pacote legislativo sancionado por Trump em julho de 2025 que ampliou significativamente os recursos destinados à política de deportações e detenção migratória. No caso do ICE, esse pacote acrescentou US$75 bilhões para quatro anos, elevando a agência a um novo patamar financeiro e consolidando-a como a agência federal de law enforcement mais bem financiada dos EUA.
Desse montante, US$ 45 bilhões foram destinados à expansão da capacidade de detenção de adultos solteiros e de centros residenciais para famílias, enquanto US$29,85 bilhões foram reservados para contratação e treinamento de pessoal, bônus de retenção e de ingresso, transporte para operações de remoção, tecnologia da informação, modernização de frota, melhorias de instalações e reforço da estrutura jurídica da agência.
Esses investimentos financeiros e políticos consolidam o ICE como uma infraestrutura nacional ampliada de captura, detenção e deportação.
Expansão material da máquina de sequestro estatal
Cerca de 68 mil pessoas estão atualmente detidas em centros de detenção administrados pelo ICE. A meta é ampliar a capacidade de detenção para 92.600 vagas até o fim de novembro. O argumento é, evidentemente, prender e deportar mais pessoas, mas também se alega que a expansão permitiria à agência evitar superlotação e fornecer padrões e serviços de detenção.
Nesse sentido, amplia-se significativamente o número de instalações permanentes e utilizadas exclusivamente pelo ICE, que adquiriu neste ano dez novos galpões em estados como Arizona, Geórgia, Maryland, Michigan, Nova Jersey, Pensilvânia e Texas, com gasto superior a US$ 890 milhões.
A instalação desses centros de detenção tende a afetar profundamente as cidades que os recebem, não apenas por inserir nelas uma nova infraestrutura de confinamento, mas por pressionar redes locais de água, esgoto, energia, trânsito, saúde e segurança, muitas vezes sem planejamento público prévio nem consulta efetiva às comunidades.
Os próprios materiais sobre a expansão do ICE mostram que a agência pretende converter galpões industriais em unidades capazes de manter entre 1.500 e 10.000 pessoas por vez, inclusive em localidades pequenas, como Williamsport, em Maryland, com cerca de 2 mil habitantes, e Social Circle, na Geórgia, cuja administração local já declarou não saber como seria possível absorver a demanda adicional sobre água e esgoto.
Ao mesmo tempo, moradores e autoridades locais têm levantado preocupações fiscais, urbanísticas e humanitárias: perda de arrecadação, impacto sobre negócios e escolas, risco de protestos, uso de imóveis industriais sem vocação para habitação humana e dificuldade de adaptar rapidamente esses espaços aos padrões mínimos de detenção.
Mais do que ampliar fisicamente a capacidade de confinamento, essa expansão territorializa a política de deportação e a inscreve no cotidiano de cidades e infraestruturas locais. Os galpões, no entanto, não são apenas depósitos de pessoas, mas parte de um dispositivo amplo de captura, triagem e remoção, cuja eficácia depende também da expansão informacional e tecnológica do ICE.
Trata-se de uma combinação de velhas obras para expansão do encarceramento em massa, marca dos governos estadunidenses desde o final dos anos 1980, com um amplo aparato de tecnologias de monitoramento e seleção de alvos que amplia ainda mais a capacidade logística da máquina de sequestro estatal dos EUA.
Diante dos investimentos e da enorme logística infraestrutural e humana do ICE, o CECOT (Centro de Confinamento do Terrorsimo) de El Salvador fica parecendo o brinquedo de LEGO do Bukele.

Expansão informacional e tecnológica
Em abril passado, o diretor interino do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas prometeu administrar a agência com a “eficiência implacável da Amazon”. As deportações em massa, disse ele, deveriam ser “como o Prime, mas com seres humanos”.
O DHS informou, em relatório anual, divulgado em fevereiro deste ano, que o ICE ampliou significativamente o escopo operacional do uso de reconhecimento facial, inteligência artificial (IA) e outras tecnologias avançadas. Dentre essas ferramentas, a aplicação mais proeminente de reconhecimento facial em celulares é o Mobile Fortify, que, segundo o ICE, permite determinar de forma precisa o status migratório de uma pessoa.
O aplicativo, fabricado pela empresa de tecnologia/biometria NEC (Nippon Electric Company), possibilita que agentes do ICE comparem imediatamente, em campo, escaneamentos faciais e impressões digitais obtidos por telefone com bancos de dados que contêm informações sobre status migratório e outros dados biográficos.
No outono, o ICE também adquiriu um aplicativo móvel de escaneamento de íris, fabricado pela BI2 Technologies, que, segundo a empresa, consegue realizar a leitura identificadora do olho de uma pessoa em segundos a uma distância de 40 cm.
Ainda no campo do reconhecimento facial, um relatório do DHS de janeiro de 2025 afirmava que o uso do sistema da Clearview AI pelo ICE estava restrito a investigações de exploração e abuso sexual infantil. No entanto, quando o ICE assinou em setembro um novo contrato de US$3,75 milhões com a empresa, indicou no registro de aquisição que a ferramenta também seria empregada para investigar “agressões contra agentes das forças de segurança”.
No que se refere aos leitores de placas, o ICE utiliza sistemas da Motorola Solutions e da Thomson Reuters. Esses dispositivos empregam câmeras de alta velocidade para fotografar veículos e armazenar os dados em bancos de dados comerciais ou governamentais. Com isso, os agentes podem recuperar o histórico de deslocamento de um veículo ou buscar todos os automóveis presentes em determinada área durante um intervalo de tempo, refinando a pesquisa por cor, marca ou estado de registro.
O ICE encomendou leitores móveis de placas da Motorola Solutions no outono e renovou contrato com o banco de dados da Thomson Reuters, que afirma possuir mais de 20 bilhões de leituras de placas, inclusive registros provenientes de câmeras privadas de vigilância. Segundo a própria Thomson Reuters, esses dados podem indicar, por exemplo, quando um indivíduo registrado em um endereço estaciona regularmente seu carro em outro local.
O ICE também acessa outros sistemas de modo indireto. Após a controvérsia gerada por seu acesso aos leitores de placas da Flock Safety, pertencentes a departamentos de polícia locais, a empresa declarou em agosto ter “pausado” um “projeto-piloto limitado” com a unidade Homeland Security Investigations do ICE. Ainda assim, registros obtidos por empresas de notícias indicam que o ICE continuou acessando dados da Flock Safety por meio de pedidos a departamentos de polícia locais aliados.
Na área de localização de celulares, o ICE utiliza simuladores de estação rádio-base da L3Harris, também conhecidos como Stingrays. Esses dispositivos se passam por torres de celular e induzem telefones próximos a se conectarem a eles, permitindo que os agentes rastreiem a localização de um aparelho em tempo real. Frequentemente instalados sobre veículos, os simuladores podem ser usados de duas maneiras: para buscar um telefone específico, quando os agentes já conhecem seu número identificador, ou para escanear todos os celulares presentes em determinada área.
As diretrizes do ICE determinam que os agentes obtenham mandado judicial antes de usar um dispositivo desse tipo, embora prevejam “exceções emergenciais”, como “a necessidade de proteger a vida humana ou evitar lesão grave”, estar em “perseguição imediata a um criminoso fugitivo” ou “impedir a fuga da Justiça de um suspeito ou condenado”. Além disso, há relatos de uso do Webloc, ferramenta associada à Penlink, que permitiria aos agentes identificar telefones específicos, realizar cercamento geográfico (geofencing) e rastrear seus deslocamentos sem mandado, a partir de dados comprados de corretores comerciais.
O ICE também dispõe de um vasto conjunto de dispositivos de perícia digital, dentre os quais soluções da Paragon Solutions, da Cellebrite e da Finaldata. Essas tecnologias permitem invadir telefones e computadores bloqueados, recuperar arquivos apagados e ler informações contidas em conversas criptografadas. Tradicionalmente, essas ferramentas eram reservadas a investigações sobre os temas “terrorismo”, “tráfico de crianças” e outros “crimes transnacionais graves”.
Durante o segundo governo Trump, porém, a liderança da agência determinou a transferência desses recursos investigativos para a campanha de deportação. Como parte de sua onda de compras no ano passado, o ICE assinou contratos com a empresa israelense Paragon Solutions, desenvolvedora do spyware Graphite, capaz de comprometer remotamente telefones e acessar dados e aplicativos criptografados, e com a Cellebrite, cujas soluções forenses permitem extrair dados de dispositivos bloqueados e organizar automaticamente o material obtido para análise.
A agência também adquiriu o FINALMobile Forensics, da Finaldata, além de outros softwares semelhantes voltados à recuperação e análise de dados apagados em dispositivos móveis.
No campo dos drones, o ICE utiliza equipamentos da Skydio e da General Atomics. Esses dispositivos se tornaram parte cada vez mais comum das operações de campo das agências federais de segurança, transmitindo vídeo aéreo em tempo real para uma base.
Um dos modelos compactos adquiridos pelo ICE, o Skydio X10D, é anunciado como capaz de detectar indivíduos a 1 km de distância, além de contar com visão noturna e câmeras térmicas. O ICE vem empregando pequenos drones para monitorar protestos ao longo do último ano. Sua agência irmã, a U.S. Customs and Border Protection, também operou um MQ-9 Predator de grau militar sobre protestos anti-ICE em Los Angeles em junho de 2025.
Mais do que modernizar procedimentos, esse arsenal amplia a capacidade do ICE, não apenas de buscar quem já foi definido como alvo, mas de expandir os meios pelos quais alvos passam a ser produzidos, acompanhados e neutralizados – dinâmica que atinge não só imigrantes, mas também todos aqueles que resistem.
LASInTec é o Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento da Eppen-Unifesp (Osasco-SP). O texto acima é de autoria coletiva e faz parte do projeto de pesquisa e extensão do Departamento de Relações Internacionais.
Este artigo é um recorte do Boletim (Anti) Segurança, número 49, do LASInTec-Unifesp. Clique aquipara ler a análise na íntegra e ter acesso a todas as referências utilizadas para a produção do artigo.
Colaboraram nesta edição os pesquisadores Acácio Augusto, Ana Clara da Mata, Carolina Rosmaninho, Clara Lis Tucci, Deise Déda, Eduarda Kovaleski, Fabio Felix, Felipe Alves, Gabriel Apolinario, Gabriella de Biaggi, Gislaine Amaral, Helena Wilke, Ingride Miranda, Ivo Ferreira, Joana Barros, Juan Rodrigues, Júlia Tibiriçá, Leticia Soares, Lou Barzaghi, Lúcia Soares, Maria Clara Minussi, Raphael Sanz, Rafaela Guimarães, Roberta Medina e Thaynna Oliveira.
Leia a matéria original: Ponte Jornalismo
