Feminicídios mostram violência contra mulheres nas forças de segurança

Casos recentes e reportagens da Ponte mostram que violência de gênero, assédio e feminicídios dentro das forças de segurança estão longe de serem exceção

Ilustração mostra mulheres policiais enfileiradas usando bonés da Polícia Militar e fitas cobrindo a boca, simbolizando silêncio, assédio e violência de gênero dentro das corporações de segurança pública.
Ilustração: Junião

O caso de feminicídio da soldado da PM Giselle — cujo suspeito pela morte é seu companheiro e superior hierárquico — foi comentado exaustivamente na imprensa como se fosse algo que nunca tinha acontecido antes. Nossa, que choque um PM suspeito de matar alguém!

Na faculdade de jornalismo, aprendemos critérios para decidir o que é ou não notícia. Um desses critérios é o ineditismo. A frase usada pelos professores geralmente para que lembremos deste conceito é: “quando o homem morde o cachorro”. Para a imprensa rica, e para parte da sociedade, um policial com acesso a arma, munição e treinamento ser o suspeito da morte de sua companheira foi algo inédito. 

E aqui não estamos tirando o mérito dos elementos que revoltam em toda essa história para além da morte da Giselle: a tentativa de simular suicídio, a presença de um desembargador logo após o ocorrido, o suspeito sendo recebido com abraços no presídio. 

Entretanto, dois fatores recentes desmentem a aplicação desse critério de noticiabilidade. O primeiro, e mais recente, é a reportagem da Mariana Rosetti, minha colega aqui na Ponte, que levantou pelo menos 15 casos de agentes de segurança que cometeram alguma espécie de agressão contra suas parceiras que trabalham na mesma instituição. 

Montagem com fotos de mulheres agentes de segurança pública mortas em feminicídios cometidos por colegas entre 2015 e 2026, conforme levantamento da Ponte Jornalismo baseado em reportagens veiculadas na imprensa | Foto: Montagem/Reprodução

Já o segundo é o especial Assédios na PM de 2017. Nele, a repórter Luiza Sansão levantou relatos sobre abuso nas polícias (militares, civis, científicas e federal), guardas e corpos de bombeiros. Em uma das reportagens, trazemos um estudo que apontou que pelo menos 40% das servidoras da segurança pública já haviam sofrido algum tipo de assédio dentro da instituição onde trabalham. Portanto, ao contrário do que a percepção midiática faz parecer, infelizmente não há nada de novo nos recentes casos de feminicídio cometidos contra e por agentes de segurança. E pior: nada mudou de lá pra cá.

Na matéria da Mari, as especialistas ouvidas apontam que “a hierarquia militar extrapola o ambiente de trabalho e atravessa também relações pessoais e institucionais”. É o tal de ser polícia o tempo todo em todos os lugares, inclusive numa relação “amorosa”.

Em um ambiente sexista de poder, hierarquia e autoritarismo, os iguais se protegerão diante de denúncias de violência de gênero e, pra variar, as vítimas – que sobreviverem – serão questionadas ou até responsabilizadas. Algumas serão suicidadas

Como é possível ser mulher atuando dentro da segurança pública diante desse estado de coisas? Alguns – tolos, com todo respeito – dirão  “ah, é só não entrar a segurança pública”. É a mesma lógica do “não quer ser estuprada, só não andar de (insira aqui qualquer veste feminina incluindo burca)”. O problema é sempre a mulher que supostamente está onde não deve. E não de um sistema feito para sugar nosso trabalho doméstico e nos violentar continuamente das formas mais sofisticadas possível. 

Vamos um pouco além? Se está assim para quem está dentro do sistema cujo lema tem a palavra proteger, imagina para quem sofre violência doméstica e precisa chamar a polícia? Qual é a confiança de que não serão constrangidas, violentadas ou até pior? Como confiar em instituições que não conseguem nem mesmo prevenir que seus servidores não estejam na lista crescente de feminicidas desse país?

O especial de 2017 demonstra que pouco mudou desde então. Não se responsabiliza, nem se coíbe e muito menos se previne. O fato é que, quando dizer respeitos a mulheres, negros e outras “minorias sociais”, trabalhamos na base do “correr atrás do prejuízo”. Só que o tal são vidas de diferentes origens que vão se perdendo pelo caminho.

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Leia a matéria original: Ponte Jornalismo