Erika Hilton e Sofia Favero acionam MP por revista vexatória em presídio de SP

Ação no Ministério Público de São Paulo (MPSP) ocorre após denúncias de abusos contra visitantes no interior paulista. Em nota, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) informou ainda não ter sido notificada

Entrada da Penitenciária Orlando Brando Filinto, em Iaras (SP), onde familiares denunciaram a realização de revistas íntimas vexatórias durante visitas.
Entrada principal da Penitenciária Orlando Brando Filinto, no município de Iaras, no interior paulista | Foto: Reprodução/Google Maps

Dias após a Ponte denunciar a rotina de revistas íntimas vexatórias imposta a familiares de presos na Penitenciária Orlando Brando Filinto, em Iaras (SP), a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) e a psicóloga e ativista Sofia Favero apresentaram, nesta segunda-feira (29/6), uma representação formal ao Ministério Público de São Paulo (MPSP).

O documento, endereçado à Promotoria de Justiça de Direitos Humanos da Comarca de Iaras, pede a instauração de um inquérito civil para apurar as responsabilidades da direção da unidade prisional. A ação tem como alvos o diretor da penitenciária, Luiz Augusto Fusco, e o agente de segurança Kleber, denunciado por familiares à reportagem da Ponte.

O pedido, segundo as autoras, se faz necessário tendo em vista que “os procedimentos de segurança e fiscalização das unidades penitenciárias perderam, no caso em tela, sua finalidade legal, transformando-se em uma punição velada e cruel aos familiares das pessoas encarceradas”.

Como medida urgente, Hilton e Favero pedem o afastamento preventivo do servidor e dos demais agentes envolvidos nas revistas até o fim das investigações, além da adoção de medidas cautelares para barrar qualquer modalidade da revista íntima na unidade prisional.

Em nota, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) informou que ainda não foi notificada sobre a denúncia.

Prática configura abuso de autoridade e viola leis

Para fundamentar o pedido, a representação utiliza os relatos trazidos com exclusividade pela Ponte. Como a denúncia de uma mãe que precisou despir o filho, um bebê de dois meses, e submetê-lo a uma revista íntima a mando do agente. Também da mãe forçada a tirar as roupas da cintura para cima na frente do filho de sete anos.

O documento reforça o que as famílias já haviam denunciado: que o servidor utilizava a estrutura estatal e a ameaça do chamado “gancho” (suspensão das visitas) para coagir as mulheres a passarem pela sala de revista, mesmo que elas já tenham passado pelo scanner corporal.  

No âmbito jurídico, a denúncia destaca que as práticas em Iaras configuram abuso de autoridade e violam a Lei Estadual nº 15.552/2014, que proíbe revistas íntimas nos presídios paulistas. O texto também aponta violações ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e desrespeito ao entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), que classifica como inadmissível o desnudamento de visitantes.  

“Essa intervenção máxima atua para inscrever na pele de indivíduos livres o estigma e a dor do ambiente prisional, estendendo-lhes, de forma dissimulada, os efeitos punitivos de uma condenação penal que jamais lhes pertenceu”, pontua o documento.

Além da atuação do MP, Hilton e Favero solicitaram que o órgão encaminhe uma cópia integral do caso à Defensoria Pública do Estado de São Paulo (DPE-SP), sugerindo uma atuação conjunta para frear as violações.

O que dizem as autoridades

A Ponte procurou a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) solicitando informações sobre o eventual afastamento do funcionário citado, a instauração de procedimentos investigativos internos e se a pasta já foi notificada da representação. A pasta respondeu, por meio de nota: “A Secretaria da Administração Penitenciária informa que não foi notificada da representação”.

Também perguntamos ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) se a denúncia foi recebida pelo órgão, mas não recebemos respostas até a publicação dessa reportagem.

Leia a matéria original: Ponte Jornalismo