Entregador morto pela PM de SP estava desarmado, denuncia família

Vídeos mostram Caio Felipe Silva do Prado, de 29 anos, ferido aguardando socorro. Segundo a família, ele levava doces para uma cliente quando foi abordado pela polícia

“Um menino muito alegre, cheio de planos, carinhoso, amoroso e bem comunicativo”, é como Rosileide Maria da Silva, de 56 anos, descreve o filho Caio Felipe Silva do Prado, 29. O jovem foi morto por um policial da Força Tática do 3º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, em 25 de novembro de 2025, na Vila Santa Catarina, zona sul de São Paulo.

Desde então, Rose busca explicações do porquê o filho saiu e nunca mais voltou. Foi a família que conseguiu imagens de um circuito de segurança que mostra Caio caindo na calçada após ser baleado. Já vídeos gravados por populares mostram o jovem sentado na calçada, aguardando o resgate. Em uma das imagens, ele parece desfalecer, deitando no solo, momento em que é remexido por um policial.

Segundo a versão apresentada pelos policiais no boletim de ocorrência, Caio foi abordado após supostamente sair de um imóvel que os agentes classificaram como “casa-bomba”, local que, de acordo com os PMs, seria usado para produzir e armazenar drogas. Durante a abordagem, ainda segundo o relato dos agentes, o jovem teria tentado retirar a arma do soldado Rafael Faria Barbieri e, por isso, foi baleado por ele. Outros três policiais participaram da ação.

A família contesta a versão dos policiais. Rose conta que, naquela tarde, Caio saiu de casa para entregar a uma cliente doces produzidos pela cunhada. Segundo a mãe, ele estava desarmado, não carregava nenhum objeto ilícito e foi baleado sem motivo algum.

PMs atiraram primeiro e averiguaram denúncia depois

Segundo o boletim de ocorrência inicial, registrado no 16º distrito policial da Vila Clementino, quatro policiais militares foram até a rua das Taquaras, altura do número 470, apurar uma denúncia de “casa-bomba”.

No endereço, alegam terem visto Caio sair do imóvel e fechar o portão ao notar a presença deles. O jovem, então, foi abordado pelos agentes. No B.O, consta que, enquanto conversava com os policiais, ele teria tentado fugir e “investiu contra a arma” do soldado Barbieri, que disparou e atingiu Caio no tórax.

Caio foi morto pela PM durante uma abordagem, família denuncia irregularidades na ocorrência | Foto: Arquivo familiar

Para a família, a versão contada pela PM busca incriminar o jovem. Rose conta que, naquele dia, o filho fazia a entrega de doces a uma cliente na mesma rua. Em depoimento espontâneo à polícia, ela afirmou que Caio estava saindo do comércio de açaí para pegar sua motocicleta quando foi abordado.

Durante a busca pessoal, os próprios registros confirmam que “nada de ilícito foi encontrado em sua posse”. Ainda assim, a polícia atribuiu a Caio mais de 2 kg de drogas apreendidas no interior do imóvel — incluindo porções de maconha, tijolos de ice, cocaína e comprimidos de ecstasy, além de uma balança de precisão.

Rose nega qualquer ligação do filho com a casa e afirma que os policiais só entraram no imóvel depois que atiraram em Caio. “Meu filho não estava armado, ele não tem arma. Aquilo ali foi uma injustiça, porque eles poderiam ter pego ele e levado para uma delegacia”, lamenta.

Outro jovem também foi abordado na mesma ocorrência. Em seu depoimento, ele relatou que auxiliava uma amiga no comércio de açaí e havia saído para fumar um cigarro na calçada quando a PM o chamou. Ao ser questionado se conhecia Caio, ouviu o disparo. Ressaltou que não visualizou o momento do tiro, nem o que aconteceu antes, e foi liberado na sequência.

Polícia Civil considerou imagens de bodycams inconclusivas

Embora os policiais estivessem utilizando câmeras corporais (bodycams), a análise preliminar das imagens feita pela Polícia Civil no dia seguinte foi considerada “inconclusiva”. Sob o argumento de que a filmagem “não possibilitou tirar conclusões sobre as circunstâncias que levaram o policial a efetuar o disparo, apenas que toda situação ocorreu em menos de um segundo”, diz o documento. 

Rose foi chamada ao prédio do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) para assistir às gravações. Ela contou à reportagem que Caio “pôs um pé dele na frente” enquanto conversava, cercado por, pelo menos, dois PMs, sendo um deles Barbieri. “Eu acho que o policial pensou que ele ia correr e atirou no tórax, a queima-roupa”, narra. Depois disso, “ele caiu, pedindo socorro, pedindo para ligar para mim, ligar para a esposa dele”, lembra.

O entregador foi morto com um tiro no peito por um PM na Vila Santa Catarina, zona sul de SP | Foto: Arquivo familiar

A mãe também conta ter visto os policiais pressionando Caio, pedindo a chave do imóvel, mas o jovem, ferido e baleado no chão, respondia não ter. Segundo Rose, os agentes chegaram a testar um molho de chaves que estava com o rapaz no portão da “casa-bomba”, mas não abriu. “Eram as chaves da minha casa”, diz a mãe.

O caso, antes a cargo do 16º DP, foi assumido pelo DHPP e registrado como “homicídio decorrente de oposição à intervenção policial”. As perícias balísticas já confirmaram que o tiro partiu da arma do policial Rafael. 

A família registrou uma denúncia na Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, que pertence ao Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos (MJDH) — que anexou os vídeos feitos por testemunhas —, a partir disso, o Ministério Público foi acionado.

Rose está sendo acolhida pela Rede Apoia, iniciativa da Defensoria Pública de São Paulo (DPE-SP), voltada a oferecer assistência jurídica e psicossocial a familiares de vítimas de violência institucional e letal. Agora, o processo está em fase de instrução na Justiça.

Família fala em omissão de socorro

A família também denuncia demora no atendimento médico. Rose conta que foi avisada por moradores do bairro de que o filho tinha sido baleado por volta das 17h. Ao chegar ao local, já perto das 18h, Caio ainda estava caído na calçada e sangrando. A ambulância chegou apenas após esse horário. 

Os documentos oficiais não mostram a hora em que o resgate foi acionado, tampouco o momento da chegada dele. O circuito de segurança obtido pela Ponte registra que o tiro teria acontecido às 16h57, o boletim de ocorrência começou a ser registrado às 21h.

Caio foi encaminhado ao Hospital Geral de Pedreira ainda com vida, mas teve o óbito constatado na unidade. Segundo Rose, a equipe médica apontou que a morte aconteceu por conta da grande perda de sangue causada pela demora no socorro.

A causa da morte, segundo o laudo necroscópico, foi choque traumático e hemorrágico. O exame interno revelou que o disparo atingiu o fígado e o estômago de Caio.

“Foi tudo interrompido”

Além da perda irreparável do filho, Rose sofreu prejuízos financeiros. O dinheiro das vendas de caldos, sopas e doces daquele mês ficou na conta de Caio, responsável pelas entregas e cobranças. O celular do rapaz foi apreendido e, até hoje, não foi liberado à família, diz a mãe. “Nossa intenção era reformar a cozinha e abrir um comércio de vendas de comida”, conta.

Caio posa sorridente abraçado com suas duas filhas pequenas | Foto: Arquivo familiar

Caio vivia com Rose e tinha duas filhas do primeiro relacionamento, Isadora e Yasmin. Para sustentar a família, trabalhava com as entregas. Segundo a mãe, ele ficava na rua até, no máximo, às 18h, por estar em regime aberto.

O rapaz foi preso em flagrante em 2015 por roubo tentado qualificado e porte ilegal de arma de fogo de uso restrito, tendo progredido para o aberto em outubro de 2024. Para Rose, o histórico do filho não justifica a letalidade da abordagem. “Ele era um menino muito alegre, cheio de planos. Infelizmente, foi tudo interrompido”, lamenta.

O que dizem as autoridades

A Ponte questionou à Rede Apoia, da Defensoria Pública, quais os próximos passos da assistência jurídica, sobre a denúncia da família de omissão de socorro, e também se a defensoria acessou as imagens das bodycams dos policiais e também se houve falha do estado.

Em nota, o Rede Apoia informou que “após procura da família de Caio, passou a acompanhar as investigações junto à Polícia Civil”. Além disso, que, “concluídas as investigações, a Defensoria avaliará a adoção de medidas de reparação”.

Também foi questionada a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) acerca do status da investigação, se os policiais envolvidos na ocorrência foram afastados e como a corporação avalia a demora no socorro denunciada pela mãe. Também sobre Caio estar desarmado e ser baleado antes dos policiais entrarem na suposta casa-bomba e sobre a análise das bodycams.

A pasta respondeu pedindo os vídeos da ocorrência, que foram enviados. Na sequência, parou de responder à reportagem.

Leia a matéria original: Ponte Jornalismo