Da Redação | As duas mortes de José – Ponte Jornalismo

O diácono José Figueiredo, de 42 anos, foi morto pela Polícia Militar. Dias depois, uma foto tirada de contexto passou a circular na internet, impondo um novo luto à família, que teme ver a memória de José substituída por mentiras

José Carlos da Rocha Sobrinho, diácono do Ministério Jeová Rapha, atuava há anos na igreja e era conhecido pela assistência a pessoas em situação de rua | Foto: Reprodução/Instagram

O diácono José Carlos da Rocha Figueiredo, de 42 anos, foi morto pela Polícia Militar no dia 13 de julho. Dias depois, enquanto a família ainda tentava lidar com o luto, José morreu de novo. Ou melhor: tentaram matar sua reputação. 

Começou a circular em grupos de WhastApp uma fotografia antiga em que ele aparecia com amigos. A imagem foi retirada de contexto e acompanhada de mensagens que sugeriam que José participava de um sequestro ou de alguma atividade criminosa. Na foto, dois amigos aparecem apontando um objeto um para a boca do outro, enquanto José registra a cena com o celular. 

A reportagem da Mariana Rosetti mostrou outra história. O objeto que um sargento da Polícia Militar divulgou em suas redes sociais como sendo uma espingarda calibre 12 era, na verdade, parte de uma fantasia de Jack Sparrow, personagem de Piratas do Caribe, usada por um dos amigos durante uma ação de Natal em que o grupo distribuía cestas básicas para a comunidade. A repórter encontrou fotografias daquele dia, conversou com diferentes pessoas que participaram da ação e reconstruiu o contexto real da imagem. 

Mais do que desmentir uma mentira, essa reportagem fala sobre memória. 

Na Ponte, contamos histórias sobre violência de Estado há anos. Falamos das estruturas que permitem que ela continue acontecendo, mostramos quem são suas vítimas e acompanhamos a busca por justiça. Mas existe uma dimensão dessa violência que, muitas vezes, passa despercebida. É a disputa pela memória de quem morreu. 

A família de José nunca negou que ele tivesse tido passagens pela polícia. Mas esse nunca foi o ponto. Nada justifica a morte dele, muito menos a tentativa de reconstruir a história dele a partir de mentiras. Ao falar sobre ele, os familiares preferem lembrar do homem que era diácono e que, naquele dia, saía de uma atividade religiosa depois de acompanhar uma fiel. 

Quando pensamos em justiça, também precisamos pensar em quem tem direito à memória. Em muitos casos, pessoas como José sequer têm o direito de serem lembradas como realmente viveram. Antes mesmo que qualquer investigação avance, surgem versões fabricadas para transformar vítimas em culpados e oferecer uma justificativa para o injustificável. 

Quando recebi a fotografia, lembrei imediatamente de Marielle Franco. Logo após o assassinato dela, uma imagem falsa passou a circular para sustentar mentiras sobre a vida dela e tentar justificar aquela execução. A estratégia era semelhante: enfraquecer a indignação, impedir o luto e convencer a sociedade de que aquela morte não merecia ser lamentada. 

A família de Marielle travou — e ainda trava — uma disputa pela memória. Lutou para que sua história fosse conhecida como ela realmente foi, e não como seus detratores tentaram apresentá-la. Hoje, quando pensamos em Marielle, lembramos de sua trajetória política, de sua luta por direitos e da violência que interrompeu sua vida. A campanha de desinformação não venceu a disputa. 

É essa mesma disputa que a família de José enfrenta agora.

Na Ponte, acreditamos que memória também é uma forma de justiça. Por isso, nosso trabalho não é apenas verificar fatos ou corrigir desinformação. É contar quem eram essas pessoas antes que as  histórias delas sejam reduzidas a um boletim de ocorrência, a uma postagem em rede social ou a uma narrativa construída para justificar essas mortes. 

Porque a violência não termina quando uma vida é interrompida. Ela continua quando tentam apagar a dignidade de quem morreu. 

É para isso que fazemos jornalismo. Para que a última palavra não seja a mentira. Para que a história que permaneça seja a verdadeira. Porque, sem memória, a justiça fica sempre incompleta. 

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