Vinte anos após os Crimes de Maio, mães de vítimas da violência do Estado seguem transformando luto em luta por justiça, memória e reparação.

Para um grupo teimoso de mulheres, maio de 2006 nunca acabou. São duas décadas convivendo com a dor de uma ausência bruta e criminosa. Duas décadas de Dias das Mães, aniversários, Natais e toda sorte de comemoração em que falta uma parte de seus corações, de suas almas. O Estado roubou isso delas sem nunca ser responsabilizado.
Maio de 2006 foi o mês dos Crimes de Maio, uma onda de violência ocorrida entre os dias 12 e 21, quando ao menos 564 pessoas foram mortas no estado de São Paulo, em sua maioria jovens, negras, pobres e moradoras de periferias. O episódio teve início com uma série de ataques da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) contra agentes públicos e se seguiu com uma vingança indiscriminada de policiais e de grupos de extermínio paramilitares contra civis alheios aos ataques.
Maio de 2026 marca então o 20º ano de um mês que nunca terminou para as Mães de Maio. Não que elas tenham ficado presas no tempo, elas avançaram muito e tanto. Mas nenhum avanço trará seus meninos de volta. Então, por que elas fazem isso? Por que uma agenda tão cheia de ações e atos públicos como Tribunal Popular, Cordão da Mentira, manifestação em Santos? Todos na semana em que os 20 anos se completam e tudo deve ficar mais em carne viva.







Venho ouvindo a resposta para essa pergunta continuamente desde que entrei na Ponte. “Eu me alimento dessa luta”, já disse Débora Maria da Silva, que é mãe do Rogério, uma das vítimas dos Crimes de Maio, e também co-fundadora e coordenadora do Movimento Independente Mães de Maio. Já ouvi também que elas lutam todo esse tempo para que sejam as últimas mães que lutam. Para que haja fim nessa carnificina genocida devoradora de filhos. Ou ainda, para que minha geração tenha a chance de viver, coisa que seus filhos não tiveram.
Mesmo com uma parte faltando, elas têm estado na linha de frente na luta pelo fim da violência de Estado que ceifou a vida dos seus e outros filhos. E, infelizmente, com o tempo, o que viram foram mais mães se somando à luta . Elas são Mães de Maio, de Osasco, do Nordeste, de Manguinhos, do Curió, de Minas. Sua luta nasce quando um filho tem a vida ceifada e elas já não têm mais nada a perder. Onde o Estado quer deserto, elas oferecem suas vidas, e a boa e velha energia teimosa da mulher brasileira da periferia.
Ao longo dessas décadas, essas mães têm transformado seu conhecimento da vida e da perda em saber acadêmico nacional e internacionalmente. Sua batalha é por justiça, memória, reparação, cuidado e atenção. Isso se materializa em estudos, leis e na construção de espaços de acolhimento voltados a uma vida de paz e oportunidades. Tudo conquistado de maneira exaustiva, em meio à dor física e emocional, enquanto ainda carregam lágrimas em segredo.
Elas têm estado na linha de frente, mesmo que a mídia ignore suas histórias, que a sociedade as deixe sozinhas, que justiça e governos sejam surdos ao clamor. E, sinceramente, eu adoraria que elas não precisassem fazer isso. Em uma dimensão ideal, eu amaria não conhecê-las como jornalista pelo simples fato de que, nesse cenário, seus filhos não teriam sido mortos. Nesta dobra do tempo, poderia conhecer a eles e suas mães pelos grandes feitos da juventude que não tiveram e não pelo crime do Estado.
Eu e toda equipe da Ponte Jornalismo convidamos cada leitor desta newsletter a participar das ações e eventos que vão acontecer a partir da próxima segunda-feira (11/5). É um convite cívico para tornar físico aquilo que, talvez, você só expresse em palavras bonitas nas redes sociais. É um convite moral para demonstrar nosso cuidado e suporte a essas nossas mais velhas, a essas ancestrais que ainda estão entre nós. É um convite para que saiamos do comodismo ao qual essas mães nunca tiveram direito.
PS: Querida Débora Silva, toda nossa equipe estará pensando em você em mais esse ano de vida que você completa neste Dia das Mães.
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