Repórteres da Ponte refletem sobre o impacto da cobertura dos Crimes de Maio, tema do podcast “Crimes de Maio: o massacre que o Brasil ignora”

Oi, tudo bem? Hoje a nossa newsletter é escrita a quatro mãos. Quem começa ela sou eu, o Paulo Batistella. Sou repórter da Ponte e colaborei na pesquisa, roteiro e locução de um podcast que lançamos na última terça-feira (12/5), o “Crimes de Maio: o massacre que o Brasil ignora”.
Compartilhei esse trabalho com a Mariana Rosetti, que também é repórter da Ponte.
Nós, da Ponte, já falamos desse podcast em e-mails anteriores que enviamos pra você. Mas agora queríamos dividir um pouco do que foi a produção dele.
No primeiro episódio (disponível nas principais plataformas de áudio), falamos, entre outras histórias, do caso da Ana Paula Gonzaga dos Santos, uma mulher grávida de nove meses que foi morta por policiais militares em meio aos Crimes de Maio, junto do marido, Eddie Joey Oliveira, e da Bianca, a bebê que ainda estava no útero da mãe.
Quando eu e a Mari conversamos sobre esse caso, do qual não tínhamos lembrança alguma, nossa sensação foi de viver em um país que desconhecíamos, mesmo já ambientados pela rotina da Ponte à violência urbana e à brutalidade do Estado.
Conforme nossa pesquisa para o podcast avançava, nos foi ficando mais evidente a necessidade de contar a história dos Crimes de Maio.
Também nos ficou claro que essa história já tem sido contada e recontada nos últimos 20 anos pelas famílias das vítimas, por insistência, principalmente, das Mães de Maio — um movimento fundado por Débora Maria da Silva, Vera Lúcia dos Santos, Ednalva Santos e Vera de Freitas, que tiveram seus filhos assassinados em maio de 2006.
E, pessoalmente falando, estou convencido de que não existe projeto de país possível sem que haja memória, verdade e justiça pelos Crimes de Maio.
(E agora eu, Paulo, passo a caneta para a Mari)
Olá, aqui é a Mari. Como Paulo adiantou para você: foram várias as conversas sobre segurança pública, direitos humanos e justiça social enquanto escrevíamos o roteiro desse podcast.
É muito bom poder dividir algumas delas com você, aqui!
Bem, não é exagero dizer que fomos atravessados por essa cobertura. Pelas histórias de dor e resistência. Mas também pelas perturbadoras semelhanças entre maio de 2006 e hoje.
Infelizmente, decisões descabidas (mas bastante propositais) eram, naquela época, e seguem sendo, política de Estado. E elas funcionam ainda agora porque muita gente compra — elas vem num embrulho bonito, aquele que você guarda achando que um dia vai usar, mas depois acaba no lixo.
Cito algumas delas aqui: a ideia de que bandido bom é bandido morto para justificar tantos mortos durante o medieval ‘combate ao crime organizado’ — que nunca é combatido e que se organiza cada dia mais.
Há também a corrupção policial: não foram poucas as vezes em que nos deparamos com casos assim durante a atmosfera que forjou os Crimes de Maio. Ou que vislumbramos as severas consequências que derivaram de uma população excluída: a prisional.
Ao mesmo tempo, a mídia hegemônica só conta um lado da história: “o oficial”, em nome de uma suposta imparcialidade.
Tudo isso estava acontecendo em maio de 2006. E anteontem, ontem e hoje. No fim, a semelhança (ou política?) mais perversa para nós, segue tendo como alvo pobres, negros e periféricos.
Nesses últimos 20 anos, você sente que tá mais seguro?
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Leia a matéria original: Ponte Jornalismo
