Beyoncé e ‘liberdade’ atrás das grades: rádio prisional LGBTQIAPN+ discute diversidade em iniciativa pioneira – Ponte Jornalismo

Na penitenciária de Viana, no Espírito Santo, pessoas privadas de liberdade comandam programas sobre saúde, direitos humanos e diversidade, além de escolher músicas e transmitir recados de familiares

A equipe da Rádio Purpurina. Da esquerda para a direita, Henrique Lemos, Luciana Levanti, Pedro Paraguassú, Alejandra Rosa, Rayllany Evangelista e Kelly Kethlen Pereira | Foto: Gil Alessi

A música I Will Survive, de Gloria Gaynor, vai chegando ao fim quando uma voz irrompe: “Estamos ao vivo na galeria, ó que beleza! Olá, olá. Boa tarde a todos!”. Saudando as 398 pessoas que cumprem pena na Penitenciária de Segurança Média 2 de Viana, no Espírito Santo — e que acompanham atentas às caixas de som —, Alejandra Rosa, 37, dá início aos trabalhos nos estúdios da rádio Estação Purpurina. Não se trata de uma rádio qualquer. É a primeira rádio prisional feita por e para o público LGBTQIAPN+ do Brasil. 

Fundada em agosto de 2024, seus estúdios ficam dentro de uma unidade exclusiva para esta população, inaugurada em maio de 2021. Pessoas presas em outros presídios do Estado que façam parte da comunidade LGBTQIAPN+ podem pedir transferência para a PSM2, como é conhecida. Atualmente ela abriga homens gays, travestis, mulheres trans, bissexuais e não binários. “Por enquanto não temos pessoas com vagina aqui”, explica Paulo Henrique Gonçalves dos Santos, 35, psicólogo que atua na unidade.  

Ao contrário do que ocorre na maioria dos presídios brasileiros, onde grande parte das pessoas está presa por tráfico de drogas e crimes relacionados, na PSM2 roubos e furtos lideram o ranking. “As facções criminosas que organizam o tráfico no Brasil geralmente não aceitam pessoas homossexuais ou transgênero”, diz Santos. “E muitas das pessoas que estão aqui passaram por uma situação de vulnerabilidade que incluiu o vício em drogas. Para sustentá-lo, praticaram pequenos assaltos e furtos”. 

A equipe da Rádio Purpurina durante a transmissão do podcast | Fonte: Gil Alessi

A Estação Purpurina transmite exclusivamente para o sistema de som do presídio, que conta com caixas em todas as galerias. “A ideia da rádio é trazer quadros informativos, discutir temas relacionados à saúde, educação, justiça e também promover o acesso a direitos. A rádio abre essas portas”, afirma Alejandra, uma das locutoras –e que trabalhava como modista antes de ter sido presa.

“A minha verdade”

De dentro do estúdio da Purpurina, decorado com leques nas cores do arco-íris, Alejandra dá seguimento ao podcast. “O nome desse episódio do nosso podcast é ‘A Minha Verdade’. Vamos falar sobre a realidade aqui dentro, questões de gênero e a nossa convivência dentro da unidade”. Completam a mesa redonda do estúdio Kelly Kethlen Pereira, Rayllany Evangelista, Luciana Levanti e Pedro Paraguassú. Na mesa de som está Henrique Lemos. Todas e todos custodiados na unidade.

“Apesar de estar dentro de uma prisão, aqui eu me sinto liberta”, afirma no microfone Luciana, uma mulher trans que era professora antes da prisão. “Esse instinto feminino que eu não pude expor para a sociedade e para a minha família, que é super conservadora, eu pude colocar pra fora aqui dentro”. Rayllany, que se identifica como travesti e mulher trans, faz coro à amiga: “Hoje posso dizer que me sinto abraçada, reconhecida, respeitada e muito bem tratada, embora eu esteja no sistema prisional”.

Mas nem sempre a PSM2 foi considerada uma unidade acolhedora para o público LGBTQIAPN+. As pessoas presas apontam o início da gestão do diretor e policial penal Gabriel Fitaroni Neves da Cunha, em maio de 2023, como um ponto de inflexão: “Eu me sentia humilhada na gestão anterior. E agora as coisas se transformaram. Hoje nós temos um excelente diretor, que veste a nossa camisa, e também é do nosso público. Eu sei que onde quer que eu vá, eu vou ser recebida como Luciana, e vou ser respeitada por isso”.

Além do uso do nome social por toda a equipe do presídio, agora as pessoas presas na PSM2 podem se maquiar e usar cabelo comprido, além de terem acesso a programas de trabalho e a um salão de beleza que tem por objetivo recuperar a autoestima de mulheres trans e travestis. “O fato de eu ser homem gay é importante, porque entendo a realidade deles. Mas o mais importante é o respeito. Respeitar a individualidade de cada um, a recuperação da dignidade de cada um. Quem está aqui já está pagando, e temos que tratar de uma maneira humana”, afirma Gabriel, diretor da unidade.

Fora da PSM2, o cotidiano de pessoas LGBTQIAPN+ em unidades heterossexuais para a população masculina é marcado por segregação e violência. Algumas prisões possuem celas e alas exclusivas para este grupo. Mas isso não garante sua segurança: em 2011, agentes penitenciários foram acusados de “espancar e agredir barbaramente” seis presos que estavam na ala destinada a homossexuais em um presídio na região metropolitana de Belo Horizonte (MG).

“Se eu estivesse em uma cadeia hetero, tomariam a minha alimentação, não me deixariam dormir no colchão, eu não poderia me dirigir aos outros presos e seria a última a tomar banho. Simplesmente pelo fato de eu ser gay. Lá a gente ainda é massacrado, temos muitos relatos de agressões e violências sexuais contra homossexuais no sistema prisional”, diz Alejandra.

Alejandra durante a transmissão do podcast | Foto: Gil Alessi

Zap zap da família

Nem só de informação vive a Purpurina. “A programação musical é importante porque muitas pessoas aqui não têm acesso aos projetos de trabalho, então ficam dentro de cela quase o dia todo”, afirma. “É um ambiente duro, onde a cabeça da gente passa por muitas coisas. Então poder ouvir uma música ajuda a acalmar e se divertir também”, afirma Alejandra. Segundo ela, as cantoras Rihanna, Beyoncé e Lady Gaga fazem parte do top five da programação da rádio. “Mas a gente também toca sertanejo, forró, sofrência, música religiosa, toca de tudo”.

Outro sucesso da rádio é o quadro Zap Zap da Família. Parentes das pessoas presas enviam áudios de Whatsapp, que, após serem analisados pela administração, são transmitidos na Purpurina. Em um dos áudios aos quais a reportagem teve acesso, uma voz de criança diz: “Oi pai! não precisa se preocupar, a gente tá muito bem! A gente não tá indo pra sua visita porque senão a mamãe se atrasa para o trabalho dela na padaria”. Em seguida, a mãe complementa: “Dia quatro a Julia* volta para a escola. Beijo!”. 

“O Zap Zap da Família é uma forma deles se manterem em contato com seus parentes do lado de fora. Principalmente porque muitos não recebem visitas porque a família mora longe e não tem como se deslocar até aqui”, explica o psicólogo Paulo Santos. 

*O nome da criança foi alterado para preservar a identidade

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