Em Ushuaia, fantasias de presos e souvenirs transformam um passado de tortura em atração turística; no Brasil, violência carcerária ainda é aplaudida no presente

Existia grande expectativa na minha voz ao dizer: “Em junho eu vou para o fim do mundo”. Não era metafórico: eu estava com passagens compradas para Ushuaia, na Argentina, cidade mais austral do planeta, pertinho da Antártida. Paisagens exuberantes, América Latina, muitas medialunas (uma espécie de croissant não folhado) e doce de leite de qualidade. Era uma pausa de respeito para comemorar minha lua de mel.
Ir para um lugar tão extremo era intencional: eu precisava descansar e me desconectar um pouco da função jornalista-que-cobre-direitos-humanos-e-sistema-prisional. Só que não foi isso que aconteceu.
Eu e meu marido chegamos a Ushuaia à noite, após mais de 12 horas de aeroporto, voo, aeroporto e voo. Na manhã do primeiro dia, o passeio escolhido (e mais esperado por mim) foi El Tren del Fin de Mundo (Trem do Fim do Mundo), no Parque Nacional de Ushuaia.
Eu já tinha pesquisado um pouco sobre ele, mas os vídeos do TikTok e as informações sortidas da internet não me prepararam para ser recebida na famosa estação por pessoas fantasiadas de “prisioneiros”. Eram homens vestidos com roupas listradas de amarelo-mostarda e azul-royal.
Antes de acessar o trem, passageiros eram chamados para uma foto. Entregaram um machado a mim e um martelo ao meu marido. Entre risos descontraídos e interpretações de medo, eles nos incentivavam a simular uma agressão aos ”presos”, que faziam cara de espanto olhando para as armas.
Eu estava desconfortável, muito desconfortável, mas tentei vestir a carapuça de turista. Não era como se eu conscientemente tivesse ido a um bar em Alphaville para sentir ”como é estar privado de liberdade” enquanto comia um hambúrguer. Aquilo era um infortúnio pontual, pensei.
As fotos, depois, foram oferecidas por algo em torno de 40.000 pesos argentinos (quase R$ 150), em uma moldura de MDF com “Ushuaia” reescrito. Não compramos. Era uma amostra do que estava por vir nos próximos dias: o turismo em torno do sistema prisional.
Bem, após atravessar a plataforma em um frio cortante e acessar o trem com estrutura interna amadeirada e aconchegante, éramos orientados a sintonizar os fones de ouvido no canal 3, pelo qual informações sobre o trem do fim do mundo eram repassadas no nosso idioma.

A história contada nos fones
Os indígenas Yámana foram os primeiros a povoar Ushuaia. Foi por conta deles que a cidade ganhou o codinome de Terra do Fogo, já que, quando os colonizadores se aproximaram da terra firme em suas embarcações da terra firme, viram muita fumaça. Eram os povos originários enfrentando o frio austral com muito fogo para se aquecer. A infeliz história você já conhece: em 1884, eles foram exterminados sob a justificativa de “evangelização”.
Pulamos alguns anos, para 1902. De maneira simplória, poucos queriam ocupar uma cidade gélida. Para não perder um pedaço de terra tão estratégico, o governo da época teve uma ideia: transformar Ushuaia em uma colônia penal. Presos seriam transferidos para lá e construiriam não só a prisão, mas a própria cidade — as casas, as ruas, os comércios e todo o restante.
Segundo a narração turística em meu ouvido, para se locomover, eles usavam um trem que fazia o mesmo trajeto que nós, turistas, percorríamos naquele dia. Com diferenças gritantes, obviamente: eu viajava livre, aquecida por muitas peças térmicas, o obturador da câmera fotografando tudo da janela gigante do vagão amadeirado e com bancos acolchoados.
Já os presos daquela época seguiam rumo à privação da liberdade, usados como instrumentos de um projeto político de povoamento do lugar que ninguém quer: o fim do mundo, onde a sociedade normaliza que eles estejam — quanto mais longe e invisíveis, melhor.
Bem, a voz metalizada tagalerava em nossos ouvidos fatos e mais fatos sobre aquela rota. Naquele presídio esteve preso “El Petiso Ojudo” (baixinho orelhudo), o primeiro serial killer argentino de que se tem conhecimento. Também esteve ali Mateo Banks, que assassinou oito pessoas em um dia. Era a calçada da fama do mundo prisional — um déjà-vu terrível me remeteu à série brasileira do presídio dos famosos. O calafrio nada tinha a ver com a temperatura negativa lá de fora, foi de vergonha.
Quase no final da rota, de modo tímido e numa passagem curta, a narradora informou que a prisão havia sido fechada em 1947 após reiteradas denúncias de violações de direitos humanos. Sob responsabilidade do Estado, as pessoas eram deixadas expostas ao frio, tomavam banho gelado, recebiam poucas roupas — estamos falando de um lugar que neva (!) — e eram forçadas a trabalhar para abastecer a cidade com lenha e gado, por exemplo.
Quem vai fiscalizar o fim do mundo? É um sistema se retroalimenta.

A cidade
Nos dias que se seguiram em Ushuaia, não foram uma, duas ou três: foram dezenas de vezes em que vi lojas de souvenirs vendendo itens do presídio do fim do mundo. Você podia comprar o uniforme completo: calça, blusa e chapéu, ou cada peça separadamente, inclusive na forma de um body de bebê. Também encontrei aquelas luvas acolchoadas para pegar objetos quentes no forno, descansos de panela e ecobags com as perturbadoras com a palavra: PRESIDIO.
Uma das principais lojas de presentes, que ocupa toda uma esquina, tinha uma vitrine exclusiva com os escritos “recuerdos del presidio”, destinada aos itens do cárcere. Ímãs de geladeira simulavam presos escalando escadas para fugir. Haviam também representações de pessoas privadas de liberdade em tamanho real. Um show de horrores.
Mas um item específico me fez sentir gosto de bile: um globo de neve, cuja base trazia o nome Ushuaia e era cercado de pontos turísticos. Dentro do globo estava um preso vestido com o uniforme amarelo e azul, agachado. Ele se espremia no espaço em que foi colocado. Ao chacoalhar, a neve caía. Parecia um sujeito com frio e desconfortável, tentando caber. É como levar para casa uma tortura em tempo real e infinita.
Quem ia querer aquilo pra si? Parece que muita gente, já que havia dezenas na prateleira. Para se ter uma ideia, os Correios de Ushuaia têm um mural com presos desenhados. Uma repartição pública que parece ‘homenagear’ as pessoas que ajudaram a fundar a cidade em que não admite que elas estavam institucionalizadas, não eram remuneradas e, de quebra, ainda eram torturadas.
Imagine que você cometeu uma atrocidade. Algo bem ruim mesmo. Mas, em vez de se lembrar dela para nunca mais repeti-la, você faz o contrário. Pega a sua atrocidade e transforma em uma oportunidade de ganhar dinheiro. Lucra com a a desgraça dos outros e com os próprios erros. É a história bonita — e mentirosa — que, por meio de palavras bonitas, mascara violações sistemáticas.
A arquitetura da antiga prisão, hoje, é um museu. Eu e meu marido decidimos não visitá-lo. Eu já estava farta de toda aquela alucinação e dos pensamentos que não paravam de emergir na viagem que deveria ser de descanso — e que foi muito boa, por sinal, eu juro!
Eu não deixava de pensar: é como se vendêssemos fotos de corpos amontoados nos corredores do Carandiru em uma moldura escrita “São Paulo”. É como se a Alemanha achasse possível que pessoas ‘fantasiadas’ com os uniformes listrados recebessem turistas no complexo de Auschwitz. É como achar aceitável brindar à barbárie cometida por agentes estatais.
Não sou contra museus. O Memorial da Resistência, por exemplo, está ali para nos lembrar dos crimes cometidos na ditadura empresarial-militar em que o Brasil assassinou cidadãos. Ele faz um trabalho de memória espetacular, sensível e político. O foco não é ganhar dinheiro, mas mostrar onde o ser humano é capaz de chegar.

O espetáculo
A cara de pau fueguina me fez olhar com ainda mais criticidade para minha terra. Veja, não é exatamente isso que fazemos com o sistema prisional brasileiro? Um espetáculo? Dizemos que prender é sinônimo de segurança e vendemos essa ideia nas eleições, nas propagandas, no imaginário popular. Isso é melhor ou pior que um uniforme que custa 25.000 pesos?
Dizemos que “bandido bom é bandido morto”, mas também que dentro do cárcere eles estão sendo ressocializados. Isso é melhor ou pior que um ímã de geladeira? Fazemos uma série que endossa a ideia de que presos são sustentados e vivem melhor que nós. Isso é melhor ou pior que um globo de neve?

Ao lado de colegas, eu já contei que num presídio de Pernambuco existe um quarto do castigo em que presos são torturados e há denúncias até de mortes. Que mulheres ainda hoje usam panos e camisetas como absorventes em algumas unidades prisionais por falta de itens básicos de higiene. Que mães estrangeiras são separadas dos seus filhos quando presas, e algumas perdem até a guarda deles. Tudo isso aqui na Ponte.
Mas também já publiquei denúncias sobre violência obstétrica no sistema prisional, mesmo depois de leis que deveriam garantir um tratamento humanitário no parto e puerpério. Expliquei como mulheres negras têm mais chance de adoecer na prisão por questões relacionadas ao sedentarismo fomentado no cárcere e à falta de alimentos de qualidade.
Como em Ushuaia, o trabalho no cárcere segue sem remuneração para muitas mulheres. Empresas lucram com uma mão de obra barata e quase nenhum compromisso fiscal, enquanto elas ficam sem direito algum. Durante a apuração dessa matéria, eu fotografei as mãos de Dona Ana, que lavava roupas das mulheres em troca de itens básicos de higiene. Ela tinha alergia ao sabão, o que deixava sua pele em carne viva.

Recentemente publicamos na Ponte um especial sobre os exames criminológicos, escrito pelo meu colega Paulo Batistella. Uma das histórias é de Lenilda, a quem eu conheci durante uma saída temporária. Ela era uma idosa doente, debilitada e extremamente gentil que esperava um papel para ser liberta, e morreu quatro dias depois de conquistar a tão sonhada liberdade. Também publicamos que mulheres e um bebê foram submetidos a revistas íntimas vexatórias em um presídio, em Iaras.
Tudo isso para dizer que a diferença entre nós e Ushuaia é que a cidade argentina comemora o passado e faz dinheiro com ele. A gente aplaude o presente. A violação de direitos daqueles que não consideramos iguais no hoje. A tal da justiça seletiva, que só convém a quem nos interessa.
A gente aplaude não a tortura representada por um boneco em um bloco de neve, mas a de gente de verdade. E também fazemos dinheiro com isso, acreditem. Quando políticos te fazem acreditar que prender mais gente trará mais segurança. Que construir presídios é a solução (enquanto desviam verbas de tudo que podem).
Passado e presente têm sangue nas mãos.
A verdade é que não é preciso ir para o fim do mundo para conhecer o fim do mundo. Basta visitar o Centro de Progressão de Pena (CPP) do Butantã em dia de saída temporária. Basta querer enxergar.
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Leia a matéria original: Ponte Jornalismo
