Ato ocorreu um mês após a morte de Thawanna da Silva Salmázio e reuniu familiares de vítimas, moradores e representantes de entidades civis na zona leste de São Paulo

Moradores do bairro Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo, se reuniram na tarde desta quinta-feira (7/5) em protesto contra a escalada da violência policial na região nos últimos anos.
A manifestação reuniu cerca de 200 pessoas entre moradores, familiares de vítimas e representantes de movimentos sociais. O ato começou na Praça 65, localizada na Avenida dos Metalúrgicos, e seguiu em caminhada até o Terminal Cidade Tiradentes. Em frente ao 28º Batalhão da Polícia Militar (BPM), responsável pelo patrulhamento da região, os manifestantes fizeram um minuto de silêncio em homenagem às vítimas da violência policial.
O protesto ocorreu cerca de um mês depois da morte de Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, baleada por uma policial militar após uma discussão verbal com a agente, em uma rua do bairro, no extremo leste da capital.
O caso de Thawanna, que ganhou repercussão nacional no início de abril, não é isolado e, tampouco, parte de uma realidade recente para a população da região, conforme denunciado por moradores há mais de uma década e corroborado por estatísticas oficiais e coberturas jornalísticas.
Presente no ato, o ex-companheiro de Thawanna, Ralf da Silveira, 41, afirmou que a família vive um “momento de luto muito difícil” desde a morte dela. Segundo ele, o filho do casal, de cinco anos, sofre com a ausência da mãe.
“Tive que largar meu trabalho para cuidar do meu filho. Não está tendo nenhum tipo de reparação da parte do governo, nem da Justiça”, afirmou.
Gabrielle, 16, filha de Thawanna, disse que participou do ato em busca de justiça pela morte da mãe. “Eu perdi minha mãe e não tem mais como ela voltar. Só quero justiça”, afirmou.
“São cinco crianças sem a mãe”, disse Jarbas da Silva, 46, pai de uma das filhas de Thawanna. “Agora é Dia das Mães. Ela vai homenagear quem?”
“O que vivemos não são casos isolados, é um padrão reiterado de atuação que transforma a periferia em espaço de controle, repressão e morte”, registra um manifesto elaborado por moradores de Cidade Tiradentes com o apoio de movimentos sociais e de direitos humanos. O documento conta com a assinatura de mais de 40 entidades de abrangência local, estadual e nacional, entre as quais o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana de São Paulo (Condepe-SP).
Os organizadores do ato afirmam que, ao longo dos últimos anos, moradores têm percebido um aumento nos casos de morte decorrente de intervenção policial na região. Segundo o grupo, vidas são interrompidas a partir de abordagens “sem fundada suspeita”, que desrespeitam moradores e são “marcadas pela arbitrariedade”, pelo “despreparo e descontrole de agentes armados” e pelo “uso desproporcional da força”. Eles citam ainda, negligência no atendimento às vítimas e falta de transparência e responsabilização de autoridades envolvidas em ações violentas e letais.

Mortes pela polícia crescem desde 2024
Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), desde 2013, ao menos 78 casos de morte por intervenção policial foram registrados em boletins de ocorrência no 54º Distrito Policial, de Cidade Tiradentes, responsável pelos registros criminais na região. Mais de 93% dessas mortes decorreram de ações da Polícia Militar, e o restante da Polícia Civil.
A pasta registrou, no ano passado, a maior taxa de letalidade policial na região desde 2020, quando ao menos 14 pessoas foram mortas por policiais em serviço no bairro. Desde então, o número vinha caindo substancialmente, até voltar a crescer em 2024, quando cinco mortes foram registradas, e novamente em 2025, ano em que foram contabilizados nove mortos pela polícia na mesma região. Já até março de 2026, o mesmo DP registrou quatro pessoas mortas em decorrência de intervenção policial, além da morte de Thawanna, ocorrida em 3 de abril.
Dados da capital levantados pelo Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp), do Ministério Público de São Paulo (MPSP), revelam que, em menos de 10 anos, de 2017 a 2025, foram registradas na cidade de São Paulo 2.566 mortes por intervenção policial, o que representa uma média de 285 mortes por ano, ou quase 24 por mês.
Nesse período de nove anos, ao menos 97 pessoas foram mortas por agentes do 28º Batalhão da Polícia Militar (BPM), responsável pelo patrulhamento em Cidade Tiradentes. Tanto em 2024 como em 2025, foram registradas sete mortes anuais decorrentes de operações do mesmo BPM, o que representa os maiores números desde 2020, quando 21 mortes foram registradas, ainda segundo divulgado pelo Gaesp. Já em 2026, até abril, foram quatro.

“Nós estamos pedindo arrego”
Dados como esses “não são abstratos”, ressaltam os organizadores do ato desta quinta (7). Essas mortes, segundo o manifesto divulgado pelo grupo, “revelam onde a violência do Estado se concentra e quem são seus principais alvos” — jovens negros e periféricos.
O grupo ressalta ainda que o número registrado em estatísticas oficiais é subnotificado. Isso porque, ainda segundo os organizadores do ato de hoje, muitos casos de violência e mortes praticadas pela polícia “sequer chegam ao conhecimento público, permanecendo restritos aos becos e vielas, onde a dor das famílias não ganha visibilidade, mas se acumula como experiência coletiva”.
“É inaceitável que uma mulher morra na condição em que morreu”, afirmou Mauro Caseri, atual ouvidor das Polícias do Estado de São Paulo, ao comentar a morte de Thawanna. Segundo ele, “atos como esse jogam luz nessa questão”.
Para Caseri, é necessário discutir “para além desse fato em si” e repensar “todo o protocolo da polícia, as abordagens” e a formação dos agentes.
Para Geralda Marfisa, 70, moradora de Cidade Tiradentes e integrante da Agentes de Pastoral Negros (APN) e do Movimento Popular de Saúde da Zona Leste, o ato é um pedido coletivo por segurança.
“Nós estamos pedindo paz, nós estamos pedindo arrego, nós estamos pedindo segurança, mas segurança de verdade. Porque aqueles que ganham para nos proteger são os que nos matam”, afirmou.
Segundo ela, moradores têm percebido um agravamento da violência policial nos últimos anos. “Tem piorado. Mais mortes. Nós estamos perdendo muitos jovens e muitas mulheres aqui em Cidade Tiradentes”, disse.

“Só nós sabemos o que essa bala disparada causa em nós. Sabemos que o policial é quem puxa o gatilho, mas também sabemos que, por trás dele, existe um secretário de Segurança Pública e um governador”, afirmou Solange de Oliveira, do coletivo Mães em Luta da Zona Leste. Segundo ela, policiais militares a abordaram enquanto seguia para o ato. Os agentes solicitaram seus documentos e a liberaram em seguida.
Conforme diversas denúncias e casos repercutidos pela Ponte ao longo de mais de 10 anos, episódios de violência policial em Cidade Tiradentes fazem parte de uma realidade antiga, ainda que intensificada nos últimos anos, no bairro. Um deles é o do jovem negro David Marciano Marinho, 23, que morreu na primeira madrugada de 2024, baleado durante uma abordagem da Polícia Militar na região.
Um morador que vive há 35 anos no bairro afirmou perceber uma escalada da violência policial na região nos últimos anos. Ele perdeu dois sobrinhos baleados pela Polícia Militar em abordagens distintas ocorridas há cerca de cinco anos na zona leste, uma em Guaianases e outra em Cidade Tiradentes. “Não tem melhora nenhuma. Eles chegam, oprimem, batem na cara. Se tiver mulher, criança, grávida, eles não estão nem aí”, afirmou. Por medo de represálias, ele pediu para não ser identificado.
Anos antes, em 2022, moradores de Cidade Tiradentes também protestaram contra o fim da violência estatal e em homenagem à memória de vítimas como: Alexandre da Silva Marques; Gabriel Soldo dos Santos Silva; Igor Bernardo dos Santos; Felipe Santos Miranda; Brayam Ferreira dos Santos; Carlos Henrique de Jesus; Rian Jorge dos Santos Farias; Luiz Henrique Oliveira Reis; Waldik Gabriel Chagas; Todos assassinados pela PM no bairro desde 2020 e também homenageados no ato de hoje.
Ainda durante a concentração do ato, policiais militares abordaram um motorista negro responsável pelo carro de som utilizado na manifestação. A reportagem presenciou os agentes solicitando os documentos do condutor para verificar possíveis infrações e se ele era “procurado pela Justiça”. A ação foi conduzida pelo 1º sargento PM Sanches e pelo 1º tenente PM Angelio.
Ex-companheiro de Thawanna, Ralf da Silveira afirmou ainda que se sentiu intimidado durante a manifestação. Segundo ele, o sargento Sanches disse que estava “de olho” nele e, depois, o fotografou com um celular. “Eu não sei para onde ele enviou essa foto minha”, afirmou.
Procurada com um pedido de posicionamento sobre as estatísticas levantadas pela reportagem, a SSP-SP ainda não retornou. O espaço segue aberto.
Leia a matéria original: Ponte Jornalismo
