Polícia responde por quase uma em cada cinco mortes violentas de crianças e adolescentes

Enquanto o total de mortes violentas dessa faixa etária caiu 10,8% em 2025, as provocadas por policiais subiram e já são a segunda maior causa, mostra o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública

Manifestantes do grupo Mães da Leste em protesto em 23/3 pedindo justiça por dezenas de famílias enlutadas | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Quase 21% de todas as Mortes Violentas Intencionais (MVI) de crianças e adolescentes no Brasil em 2025 foram cometidas por policiais, sendo a maioria das vítimas meninos negros. É o que mostram os dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) nesta quinta-feira (23/7), enviados antecipadamente à Ponte

A pesquisa registra que 428 crianças (de 0 a 11 anos) e adolescentes (de 12 a 17 anos) foram vítimas de mortes decorrentes de intervenção policial em 2025. O número representa quase uma em cada cinco das MVI registradas nessa faixa etária, e é a segunda maior causa desse tipo de morte, atrás apenas do homicídio doloso, com 1.611 casos. 

Para Cauê Martins, coordenador de Infância e Juventude do Fórum, os números são inaceitáveis e demonstram a falência do Estado em garantir a proteção de crianças e adolescentes.

Polícia ganha peso entre as mortes de crianças e adolescentes

Mortes Violentas Intencionais é uma categoria criada pelo FBSP, publicada pela primeira vez no 9º anuário. O indicador engloba, além de mortes decorrentes de intervenções policiais em serviço e fora dele, homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte. 

Em 2025, 2.079 crianças e adolescentes foram vítimas de MVI, número menor que em 2024, quando 2.356 mortes foram registradas. O recuo de 10,8% acompanha a tendência nacional de queda da letalidade observada nos últimos anos entre o público adulto.

As mortes cometidas por policiais contra crianças e adolescentes, porém, foram na direção oposta: passaram de 19,2% para 23,1%, um crescimento de 20,3% entre 2024 e 2025. Das 428 vítimas, 425 eram adolescentes e três, crianças de até 11 anos.

O pesquisador pondera que o aumento das mortes por intervenção policial não deve ser interpretado como a causa da redução das Mortes Violentas Intencionais (MVI). Para ele, a leitura de que “está funcionando a letalidade policial” e, por isso, houve redução das mortes violentas, é distorcida e foge da realidade.

O que o Fórum tem observado, a partir dos dados, é que mortes causadas por policiais configuram “uma situação complexa, que lida com ilegalidades da atuação policial, vínculos com atividades ilícitas em alguns territórios e corrupção”, afirma o coordenador.

O próprio anuário situa a evolução dessas mortes num conjunto de fatores complexos: a transição demográfica, as dinâmicas dos mercados ilícitos, a atuação das organizações criminosas, os padrões de uso da força pelas polícias e as relações, por vezes litigiosas e corruptas, entre agentes do Estado e grupos criminosos.

Adolescentes negros concentram as maiores vítimas da violência policial

O Estado, por meio de seus agentes, não entra em todos os territórios sob a lógica do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) nem da proteção integral prevista na Constituição. Para Cauê, não há dúvidas de que alguns corpos são mais “matáveis” que outros: 62,6% das crianças vítimas de MVI eram negras.

Entre os adolescentes, o número sobe para 86,3%. Isso significa dizer que nove em cada dez adolescentes assassinados no Brasil são negros. O pico de mortes, afirma o pesquisador, começa na adolescência, por volta dos 13 ou 14 anos, e se estende até o fim da juventude, aos 27, 29 anos.

É nesse ponto que a curva diz mais do que parece: quando os índices de mortes de crianças e adolescentes negros se aproximam dos de adultos, o dado pode indicar que o próprio poder público passou a tratá-los como tal. Uma adultização precoce, que retira de juventudes negras o título de vítimas.

De todo modo, existe “uma naturalização na sociedade brasileira que age como se fossem aceitáveis esses diferentes tipos de violação contra crianças e adolescentes”, defende o pesquisador. O número inferior ao das vítimas adultas, pontua, não pode significar falta de preocupação ou apatia diante dessas mortes. 

O Fórum calcula que, nos últimos 14 anos de anuário, o país somou mais de 700 mil mortes violentas intencionais na população em geral. São, para Cauê Martins, vidas que poderiam ter muito a acrescentar à sociedade, e não apenas em termos econômicos, mas impulsionando “caminhos mais democráticos”, diz.

Reforça a agenda do Fórum pela transparência dos dados e pela importância de levar evidências ao debate público — para que ele não seja colonizado por ideias sem respaldo empírico, como a redução da maioridade penal. “Qual a evidência de que isso, a longo prazo, vai solucionar a questão da violência, do crime?”, questiona. “Não tem evidência.”

Em sua perspectiva, “o Brasil perde muito em termos do seu próprio desenvolvimento enquanto nação ao exterminar uma parcela da população, negando-lhe direitos”.

Leia a matéria original: Ponte Jornalismo