Justiça torna réus PMs por morte de entregador e fraude com ‘arma plantada’ na cena – Ponte Jornalismo

Ivo Florentino dos Santos responderá por homicídio qualificado por ter atirado no jovem. Ele também é acusado de fraude processual, assim como outros três PMs. MPSP anexou ao processo uma reportagem da Ponte com relato da mãe da vítima

Ivo Florentino dos Santos aparece chutando arma para debaixo de moto | Foto: Reprodução

A Justiça de São Paulo tornou réus os quatro policiais militares envolvidos na morte do entregador Gabriel Ferreira Messias da Silva, de 18 anos, ao acolher uma denúncia do Ministério Público estadual (MPSP). O caso ocorreu em 26 de novembro de 2024, na capital paulista.

O sargento Ivo Florentino dos Santos, que atirou contra Gabriel, vai responder por homicídio qualificado pelo uso de recurso que dificultou a defesa da vítima e pelo emprego de arma de fogo de uso restrito.

Ivo também é acusado agora de fraude processual, assim como outros três policiais que participaram da ocorrência: o cabo Evanildo Costa de Farias Filho e os soldados Ailton Severo do Nascimento e Gilbert Gomes dos Santos.

O MPSP entendeu que os quatro policiais, todos eles do 4º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), atuaram em conjunto para colocar uma arma de fogo na cena do crime, com a intenção de atribuí-la a Gabriel e, assim, justificar o assassinato do jovem sob a alegação de legítima defesa.

A fraude, identificada a partir de imagens das câmeras corporais dos próprios policiais envolvidos, ocorreu enquanto Gabriel ainda agonizava e implorava pela vida.

“A alteração da cena do crime não decorreu de providência voltada ao socorro da vítima ou à preservação do local, mas de atuação dirigida à modificação dos vestígios materiais existentes”, argumentou o promotor de Justiça Thiago Alcocer Marin na denúncia apresentada em 30 de junho.

O juiz Antonio Augusto Mestieri Mancini, da 3ª Vara do Júri da Comarca de São Paulo, acolheu a denúncia em 1º de julho.

Os quatro poderão responder ao processo em liberdade, já que o MPSP entendeu até aqui não ser necessária a prisão preventiva dos agentes. Apenas Ivo e Ailton foram afastados de atividades operacionais.

MPSP incluiu no processo reportagem da Ponte com relato da mãe

Com a denúncia apresentada recentemente, o promotor responsável pelo caso anexou ao processo judicial a íntegra de uma reportagem publicada pela Ponte em maio do ano passado.

A reportagem trouxe um relato da mãe de Gabriel, Fernanda Ferreira da Silva, 40, sobre o modo como encontrou o filho na madrugada de 27 de novembro de 2024, horas depois do assassinato: o jovem estava baleado e apenas de fralda em um hospital, sem que houvesse explicações sobre o que havia ocorrido com ele.

“Fizeram o meu filho ir para o hospital só de fralda, para ser levado como indigente. Por isso estou lutando por justiça. Meu filho tinha uma família, quero que seja feita justiça”, disse a mãe à Ponte na ocasião.

Na noite em que foi morto, Gabriel havia saído com dois amigos para se distrair em uma breve folga, cada um em uma motocicleta. Ele não era habilitado, mas já usava a moto para trabalhar como entregador por aplicativo, o que lhe permitia ajudar a mãe e outros três irmãos, dois deles ainda crianças.

Os três amigos abasteceram as motos em um posto de combustíveis na Vila Cisper, bairro da zona leste da capital, e, ao saírem do local, pouco depois das 23h, receberam ordem de parada de PMs que estavam em uma viatura.

Os jovens tentaram fugir, cada um indo para uma direção diferente, mas Gabriel acabou sendo alcançado na esquina das ruas Belém Santos e Colônia Leopoldina, também na Vila Cisper, onde ele caiu com a motocicleta.

Segundo a versão policial, Gabriel teria se desequilibrado e caído com a motocicleta. Em seguida teria levado as mãos à cintura e sido baleado por representar uma “iminente ameaça”. Os agentes afirmaram ter encontrado uma arma com ele.

Câmeras corporais desmontaram a versão de PMs sobre o caso

Em um dos vídeos das câmeras, divulgado inicialmente pela TV Globo, o soldado Ailton, também presente na ocorrência, pergunta ao jovem se a moto era roubada, o que ele nega, enquanto também pede ajuda: “Eu sou trabalhador, senhor, para que isso comigo, meu Deus?”.

Ailton, então, se agacha, como se simulasse ter achado algo, e depois fica de costas para a vítima, sob ordens de um outro policial que diz “vira, vira, vira”.

Ao ficar novamente de frente para o jovem, Ailton permite que a câmera acoplada à própria farda filme Ivo chutando uma arma para debaixo da moto. Evanildo dirigia a viatura, e os policiais estavam sob o comando de Ivo. Gabriel morreu antes mesmo de ser levado ao hospital.

Os dois amigos de Gabriel que conseguiram fugir avisaram ao pai do jovem que alguma coisa poderia ter acontecido. O familiar foi à esquina onde ocorreu a abordagem e soube, por vizinhos, que o filho havia sido levado ao hospital.

Depois, uma médica plantonista informou ao pai que o jovem teria morrido supostamente em razão de uma parada cardiorrespiratória após um acidente de trânsito. Ele chamou então Fernanda para que fossem reconhecer o corpo.

Apenas depois do enterro do filho, a mãe teve acesso à primeira versão oficial sobre a morte: o boletim de ocorrência, no qual os policiais militares narravam uma fuga de motocicleta do jovem e um iminente confronto, ocasião em que ele estaria armado e teria sido baleado por um agente.

Posteriormente, com ajuda do movimento social Mães em Luto da Zona Leste, Fernanda buscou a Defensoria Pública estadual (DPESP). O órgão público conseguiu então levar ao inquérito um relatório no qual contestava a versão policial, com base na degravação das imagens captadas pelas câmeras corporais.

À época em que conversou com a Ponte, a mãe de Gabriel disse se sentir amedrontada e relatou que, no dia seguinte à morte do filho, os policiais envolvidos no caso teriam ido a condomínios próximos ao local do crime para intimidar a vizinhança, de modo que fossem apagadas eventuais imagens gravadas por câmeras de segurança. Por conta disso, especialistas consultados pela reportagem na ocasião afirmaram haver margem para a imposição da prisão preventiva aos policiais envolvidos.

O que diz a defesa dos réus

A Ponte procurou o escritório de advocacia que atua em favor de Ivo Florentino dos Santos, o único dos réus com defesa constituída no processo, mas não obteve retorno até aqui. O espaço segue aberto às defesas dos quatro policiais.

Ao longo da investigação do caso pela Polícia Civil, Ivo alegou, em oitiva, ter atirado para repelir uma iminente e injusta agressão por parte de Gabriel. Ele ainda sustentou ter sido encontrada uma arma com a vítima. Já em interrogatório, após ter sido indiciado, o sargento optou por manter-se em silêncio, assim como Ailton.

Gilbert relatou à Polícia Civil que, após o disparo de Ivo contra Gabriel, foi o primeiro a descer da viatura e se aproximar da vítima, quando não viu arma alguma. Disse ainda que, quando o sargento mandou que ele se virasse, se deslocou para o entorno da cena para manter a segurança da equipe policial, o que seria um procedimento padrão.

Evanildo, por sua vez, ao ser questionado se viu alguma arma com Gabriel, afirmou só tê-lo visto levar as mãos à cintura e que não participou da suposta retirada da arma atribuída à vítima.

Os quatro policiais relataram ainda, em um inquérito da Polícia Militar, não terem retirado quaisquer pertences de Gabriel — segundo a família, ele deveria estar com um capacete, um cartão bancário, uma bolsa e as chaves de casa.

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