‘Me deixaram morta em vida, mas eu vou lutar’: mãe pede prisão de PMs por morte de entregador – Ponte Jornalismo

Fernanda Ferreira da Silva, 40, precisou deixar o trabalho e lidar com trauma na família após filho mais velho ter sido morto pela Polícia Militar. Quase dois anos depois, Justiça tornou réus os envolvidos no caso

Gabriel da Silva, 18, foi morto em novembro de 2024 | Foto: Arquivo pessoal

Fernanda Ferreira da Silva, de 40 anos, diz que, quando sai à rua com os filhos ainda crianças, um de oito e o outro de dez anos, os dois não podem ver uma viatura policial que querem voltar para casa. “Eles falam: ‘Mãe, vamos embora, por favor, eles vão matar a gente’.”

Além dos pequenos e de um outro filho, ela também é mãe de Gabriel Ferreira Messias da Silva. Mais velho de quatro irmãos, ele foi morto por um policial militar aos 18 anos de idade, em 26 de novembro de 2024, na cidade de São Paulo. “A gente espera o quê? Que a polícia proteja a gente. Toda criança gosta da polícia. Mas os meus, não, os meus são traumatizados”, conta Fernanda.

Ela diz que não sente, no entanto, o mesmo medo das crianças, por já não se sentir sequer viva. Desde aquela noite em que a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) tirou a vida de Gabriel, a mãe vive uma coisa diferente, uma morte em vida, como ela diz, à espera de que os envolvidos sejam presos.

“Ele matou o meu filho e me matou em vida. Ele [o policial atirador] me deixou morta em vida. E o meu filho não vai ser só mais um na mão desses policiais. Nunca mais um inocente vai morrer, porque eu, como mãe, vou lutar com todas as minhas forças para que nenhuma mãe mais se cale, para que não tenham medo.”

Mãe diz que policiais deveriam ter sido presos preventivamente

A mãe de Gabriel conversou com a Ponte dias depois de a Justiça de São Paulo ter tornado réus os quatro policiais envolvidos no caso, em decisão do último dia 1º de julho.

O sargento Ivo Florentino dos Santos, que atirou contra o jovem, vai responder agora por homicídio qualificado, por utilizar recurso que dificultou a defesa da vítima e pelo emprego de arma de fogo de uso restrito.

Ivo também é acusado de fraude processual, assim como outros três policiais que participaram da ocorrência: o cabo Evanildo Costa de Farias Filho e os soldados Ailton Severo do Nascimento e Gilbert Gomes dos Santos.

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), que os denunciou à Justiça, entendeu que os quatro policiais atuaram em conjunto para colocar uma arma de fogo na cena do crime, com a intenção de atribuí-la a Gabriel e, assim, justificar o assassinato do jovem como sendo em legítima defesa.

O caso ganhou ampla repercussão na ocasião em que as imagens das câmeras corporais dos PMs vieram a público, colocando em xeque a versão deles e expondo a suspeita de fraude.

Os policiais poderão responder ao processo, no entanto, em liberdade, uma vez que o MPSP entendeu que a prisão preventiva deles não seria necessária. “Eu acho que foi o único erro do Ministério Público”, diz Fernanda.

Perseguição terminou na morte de Gabriel

Na noite em que foi morto, Gabriel havia saído com dois amigos para se distrair em uma breve folga, cada um em uma motocicleta. Ele não era habilitado, mas já usava a moto para trabalhar como entregador por aplicativo — assim, ajudava a mãe com as contas de casa e a cuidar dos irmãos menores.

Os três amigos abasteceram as motos em um posto de combustíveis na Vila Cisper, bairro da zona leste da capital, e, ao saírem do local, pouco depois das 23h, receberam ordem de parada de PMs embarcados em uma viatura do 4º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep).

Os jovens tentaram fugir, cada um indo para uma direção diferente, mas Gabriel acabou alcançado na esquina das ruas Belém Santos e Colônia Leopoldina, também na Vila Cisper, onde caiu com a motocicleta. A versão policial era de que Gabriel se desequilibrou antes de cair.

Depois disso, ainda segundo a PM, o entregador teria se levantado e levado as mãos à cintura, quando o sargento Ivo, sentado dentro da viatura junto de outros três policiais militares, teria atirado contra ele para “cessar iminente ameaça”. Ao revistarem a vítima posteriormente, eles teriam encontrado então uma arma de fogo com ela.

Imagens gravadas pelas câmeras corporais dos próprios policiais revelaram, no entanto, que Gabriel não estava armado quando foi baleado, pondo em xeque a versão dos agentes. Testemunhas também disseram não terem visto arma alguma com o jovem.

MPSP citou reportagem da Ponte em denúncia à Justiça

Em um dos vídeos, repercutido a princípio pela TV Globo, o soldado Ailton, também presente na ocorrência, questiona o jovem se a moto era roubada, o que ele nega, enquanto também pede ajuda: “Eu sou trabalhador, senhor, para que isso comigo, meu Deus?”.

Ailton, então, se agacha, como se simulasse ter achado algo, e depois fica de costas para a vítima, sob ordens de um outro policial que diz “vira, vira, vira”.

Ao se postar de frente para o jovem novamente, Ailton permite que a câmera acoplada à própria farda filme Ivo chutando uma arma para debaixo da moto.

Também estavam na ocorrência os policiais Evanildo Costa de Farias Filho, que dirigia a viatura, e Gilbert Gomes dos Santos. Todos eles estavam sob comando de Ivo na ocasião. Gabriel morreu antes mesmo de ser socorrido ao hospital.

Conforme já havia mostrado a Ponte em outra reportagem, que foi citada pelo MPSP na denúncia dos policiais à Justiça, Fernanda só passou a entender o que havia ocorrido com Gabriel dias depois de já tê-lo até enterrado.

Na madrugada de 27 de novembro de 2024, quando ela e o pai do jovem foram a um hospital reconhecer o corpo do filho, receberam a informação inicial de que ele teria morrido em um acidente de trânsito. Só depois viram o jovem baleado e deitado vestindo apenas fraldas em uma cama da unidade.

A partir dali, ela passou a buscar por respostas, quando, por ajuda do movimento social Mães em Luto da Zona Leste, chegou à Defensoria Pública estadual (DPESP). O órgão público conseguiu então levar ao inquérito sobre o caso um relatório no qual contestava a versão policial, com base na degravação das imagens captadas pelas câmeras corporais dos envolvidos.

‘Vou lutar com unhas e dentes até o último dia da minha vida’

Depois da morte do filho, Fernanda também chegou a se encontrar com um dos próprios policiais envolvidos no caso na sede do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), uma divisão da Polícia Civil de São Paulo dedicada a investigar assassinatos.

Até então, Fernanda trabalhava no local como recepcionista, vendo circularem por ali cotidianamente suspeitos e familiares das vítimas de mortes violentas. Dessa vez, estava no local um dos algozes do próprio filho.

“Quando eu estive com ele, eu falei que queria que Deus perdoasse tudo o que ele fez com o meu filho, mas que, toda noite, quando ele dormisse, ele escutasse a voz do meu filho pedindo ajuda”, diz.

“E o advogado dele tentou me calar, gritando comigo, falando que eu não poderia falar com o cliente dele. E eu falei que ali eu não estava coagindo ele, que era um desabafo de uma mãe. Então, a todo o tempo, eles tentaram me calar”, afirma ainda Fernanda.

Depois daquele episódio, ela diz que não suportou mais lidar com aquele ambiente: precisou pedir demissão. “Essa situação mexeu muito com a minha cabeça, porque, além de terem matado o meu filho, quando eu fui falar sobre Deus, ainda tentaram me calar. Foi mais um dano que o Estado me causou.”

Até hoje, Fernanda não conseguiu voltar a trabalhar. Ela diz que tenta concentrar forças e cuidar da cabeça para que possa ver justiça antes que a morte em vida seja mais morte do que vida.

“Eu espero verdadeiramente que eles sejam condenados, que eles paguem. Eu vou lutar com unhas e dentes até o último dia da minha vida para que isso aconteça.”

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