Foto de José Carlos da Rocha Sobrinho circula em grupos de WhatsApp e perfis nas redes sociais, incluindo o de um sargento da PM, com objeto descrito como arma; amigos afirmam que item fazia parte de uma fantasia e que registro foi feito durante brincadeira há cerca de oito anos

Em meio ao luto pela morte do diácono José Carlos da Rocha Sobrinho, de 42 anos, baleado por policiais militares, a família se viu diante de uma nova violência: uma fotografia de José passou a circular fora de contexto, em grupos de WhatsApp e no Instagram, acompanhada de mensagens que, segundo familiares, distorciam sua imagem.
A fotografia mostra três homens sentados em uma calçada: um de camiseta preta, outro de camiseta branca e José, que está sem camisa. Uma quarta pessoa aparece em pé, com o rosto fora do enquadramento. O homem de preto segura um objeto semelhante a uma arma, colocado na boca do que veste branco. José, por sua vez, segura um celular. Todos riem.
A imagem circulou sem informações sobre quando e em quais circunstâncias havia sido produzida. Um dos perfis que a compartilhou foi o do sargento da Polícia Militar Luciano Galesco, presidente da Associação dos Oficiais, Praças e Pensionistas da Polícia Militar do Estado de São Paulo (AOPP) e diretor do Instituto Histórico Militar (IMH). Na publicação, escreveu: “O pastor é esse que aponta o celular para o fiel que está colocando uma calibre 12 na boca do outro fiel”.

Procurado pela Ponte, Galesco afirmou ter feito “apenas um questionamento” sobre José ser pastor. Acrescentou que “demais interpretações ficam na consciência de cada um”. A resposta completa está disponível ao fim da reportagem.
A imagem também circulou em grupos de WhatsApp acompanhada do texto: “DUNGA, ‘SUPOSTO’ pastor morto pela polícia”. A família afirmou ter recebido, ainda, mensagens segundo as quais a fotografia teria sido feita durante o sequestro de um homem.
Para compreender a origem da imagem, a Ponte ouviu familiares de José e pessoas que estavam presentes na ocasião. Segundo os relatos, a fotografia foi feita há cerca de oito anos e registra uma brincadeira entre amigos após uma ação comunitária de Natal. As fontes afirmam que não houve sequestro e que o objeto mostrado na cena não era uma arma, mas um cano que fazia parte de uma das fantasias usadas na ação.
Amigos dizem que foto registra brincadeira após ação comunitária
Piloto Fazinho, como é conhecido e prefere ser identificado, é o rapaz que aparece de camiseta branca na imagem. Em entrevista à Ponte, Fazinho conta que ele e José foram vizinhos durante toda a vida e que participavam anualmente da entrega de cestas básicas à comunidade.
“Quando a gente não entrega cesta básica, a gente tá entregando brinquedo pras criançada. Todo mundo se fantasia e vai para as ruas”, conta. A ação faz parte do projeto Doce Natal, que acontece anualmente no Parque São Rafael e mobiliza a comunidade local.
A circulação da imagem fora de seu contexto original surpreendeu Fazinho, que ainda estava de luto. Na tentativa de preservar a memória de José, ele publicou um vídeo em seu perfil no Instagram para desmentir as informações que chamou de “fake news”. Explicou que “ali foi uma foto de final de ano, todo mundo fantasiado” e que o objeto colocado em sua boca não era uma arma, mas um cano.
Fazinho apresentou também uma segunda foto do mesmo dia, em que outro amigo aparece fantasiado de Capitão Jack Sparrow, pirata da franquia Piratas do Caribe. Trata-se do cantor Márcio Shaum, conhecido artisticamente como Pancada Roots.
Shaum também divulgou nas redes sociais um vídeo com várias outras fotos em que aparece vestido como o personagem, em meio a crianças e outros moradores fantasiados. Na gravação, ele mostra também o chapéu usado na ocasião.
Surpreendidos com os contextos atribuídos à fotografia, Fazinho e Márcio afirmam que a cena retrata apenas uma brincadeira entre amigos.

PMs acionaram câmeras corporais após disparos
José morreu após ser baleado por policiais militares da Companhia de Ações Especiais de Polícia (CAEP) na segunda-feira (13/7), na rua Wagner de Araújo, no Parque São Rafael, zona leste de São Paulo. A Ponte teve acesso ao boletim de ocorrência registrado no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
Segundo o documento, os policiais patrulhavam a região quando deram ordem de parada ao motorista de um VW Fox, identificado como José. De acordo com o relato dos agentes, o diácono não teria obedecido e, quando a viatura emparelhou com o seu veículo, “o motorista sacou arma de fogo, tendo-a apontado aos policiais, que reagiram à injusta agressão”.
José foi baleado no pescoço, na cabeça e na coxa direita e levado para o Hospital de Sapopemba, onde morreu. Segundo o boletim, os PMs afirmaram que José tinha antecedentes criminais e era “integrante de facção criminosa denominada PCC”.
Os policiais alegaram ainda que ele “portava arma de fogo do tipo pistola, Glock, calibre 380 com numeração suprimida”, posteriormente apreendida, e que não havia testemunhas nem câmeras de segurança no local.
O documento, registrado como resistência, posse ou porte ilegal de arma de fogo e morte decorrente de oposição à intervenção policial, informa também que os agentes usavam câmeras corporais, mas que os equipamentos teriam sido acionados somente após os disparos contra José.
Em reportagem publicada pelo g1, uma testemunha que preferiu não se identificar contestou a versão policial e afirmou que não houve troca de tiros. Outra pessoa, também ouvida sob anonimato, relatou que a viatura já estava na região antes da chegada de José: “[A viatura] já estava no local, parando algumas pessoas, perguntando, tudo certinho. Ai depois, eles pararam no local onde a vítima foi baleada e ficaram um bom tempo ali. Parecia que estavam, realmente, esperando ele passar”.
Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP), em nota enviada à Ponte, os policiais foram afastados das suas atividades operacionais até a conclusão das investigações. A morte desencadeou manifestações na segunda-feira (13/7) e no dia seguinte (14/7).
Família exige respostas
Segundo Bruno, filho do diácono, os protestos cobram da polícia a divulgação das imagens das câmeras corporais. Para a família, a circulação da fotografia fora de contexto soma-se a outras informações sobre José que os familiares consideram falsas. Os familiares contestam a versão dos policiais e afirmam que o diácono não reagiu à abordagem e estava desarmado quando foi morto.
“Até agora, nós estamos mostrando nossa cara, porque nós sabemos que meu pai não devia nada, entendeu? Cadê os policiais? Os policiais não se manifestaram. Cadê aquele secretário da Segurança Pública lá? Ele não se manifestou. Enquanto eles não botarem a cara deles, nós não vamos parar”, afirma.

Para Bruno, a circulação da fotografia busca construir sobre José uma nova imagem “que não procede”. Fazinho também cobra a divulgação das gravações. “A gente só quer as câmeras corporais. Ele estava na igreja há três anos. Só o que ele carregava no carro dele era uma bíblia”, afirma.
Em uma publicação no Instagram, o Ministério Jeová Rapha, no qual José atuava, afirmou que o diácono “era conhecido por seu trabalho de assistência aos mais necessitados, especialmente às pessoas em situação de rua, levando alimento, cuidado, esperança e, acima de tudo, a Palavra de Deus”.
O que dizem as autoridades
A Ponte perguntou à Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) se a pasta tinha conhecimento da publicação feita pelo sargento Galesco e se a conduta seria apurada. Questionou ainda por que as câmeras corporais dos policiais envolvidos na ocorrência foram ativadas somente após os disparos, se isso violava algum protocolo e qual era o andamento da investigação. A pasta respondeu com a seguinte nota, reproduzida na íntegra:
A Polícia Militar esclarece que apura todas as circunstâncias dos fatos por meio de Inquérito Policial Militar (IPM), incluindo os relatos e conteúdos veiculados nas redes sociais. Os policiais militares envolvidos na ocorrência foram afastados das atividades operacionais até a conclusão das investigações. A instituição reforça que não compactua com desvios de conduta e adota medidas rigorosas para apurar e punir todas as irregularidades identificadas. O caso também é investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
Procurado pela Ponte, Galesco enviou a seguinte resposta, reproduzida na íntegra:
“Prezados, na postagem eu fiz apenas um questionamento, se era ele o Pastor, apenas isso. Demais interpretações fica na consciência de cada um. Não compactuo com incitação à violência, ódio, baderna e muito menos com crimes ou criminosos e respeito o livre trabalho, sobretudo dos órgãos de imprensa e comunicação. Por oportuno, também não concordo com fechamento de vias (queimando pneus, veículos, impedindo que populares não voltem para casa), sob o escopo de que Policiais Militares, que também são trabalhadores teriam, vitimado um inocente, antes mesmo de qualquer investigação, nesse caso, eventual ilegalidade, excesso ou mesmo abuso, existem os órgãos correicionais para acionar e atuar. Por fim, a postagem não ameaça ninguém, não denigre ninguém, muito menos incita o ódio, ao contrário de muitas que tenho recebido por conta da postagem.”
Leia a matéria original: Ponte Jornalismo
