Da Redação | O Conto da Aia – Ponte Jornalismo

Ao questionar o voto feminino e explorar violências enfrentadas pelas mulheres para defender papéis tradicionais de gênero, a extrema direita deixa claro que a autonomia das mulheres continua sendo um obstáculo ao seu projeto de poder

Mulheres em formação vestindo trajes vermelhos e brancos idênticos.
Cena exterior da série “O Conto da Aia” com aias em formação em arquibancadas | Foto: Divulgação/Hulu

Há quase dois anos, quando deixei um cargo em televisão para ser jornalista independente, assumi um compromisso: trazer a perspectiva de gênero em todo trabalho que eu me propusesse a fazer. É importante eu te dizer: sou uma jornalista feminista. 

E talvez por isso, nessa última semana, o algoritmo me indicou, mais de uma vez, o vídeo em que o Paulo Figueiredo, neto de João Figueiredo, último ditador do período da ditadura militar brasileira, diz que “mulher vota estatisticamente mal, principalmente mulheres solteiras” e que “mulheres casadas, no geral, tendem a acompanhar o voto do marido”. O que não me surpreendeu, mas redobrou a minha vigilância. E aqui pretendo te dizer por que você deveria redobrar a sua também. 

Paulo Figueiredo é um bolsonarista foragido da Justiça brasileira que está ancorado nos Estados Unidos e exerce influência sobre a campanha do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) — filho de Jair Bolsonaro, que foi preso durante investigações que apuravam uma tentativa de golpe de Estado. Foi ele que, junto de Eduardo Bolsonaro, outro filho do ex-presidente, foi à Casa Branca pedir a Donald Trump que os Estados Unidos impusessem tarifas sobre produtos brasileiros.

Carlos e Eduardo Bolsonaro em visita à Casa Branca.
O influenciador Paulo Figueiredo, com Flávio e Eduardo Bolsonaro durante encontro com o presidente americano Donald Trump na Casa Branca . Foto: Reprodução/X

Figueiredo não falou sobre voto feminino por acaso. Não é de hoje que Trump, líderes religiosos e figuras da extrema-direita promovem ataques aos direitos das mulheres, com foco especial nos votos. Ora eles vêm em formato de declarações individuais, ora como a lei “Save America”, que exige que eleitores comprovem ser cidadãos americanos por meio do passaporte ou da certidão de nascimento. Especialistas ouvidos pelo O Globo apontam que, caso a lei passe no Senado, mulheres que mudaram o sobrenome ao casar teriam que tirar novos documentos para votar.

Outro papo que tem rolado nos EUA, e também explodiu no Brasil após a fala de Figueiredo, foi o voto familiar — uma solução para a “mulher que vota estatisticamente mal”. Funciona assim: apenas o chefe da família — normalmente o marido — deveria representar politicamente todo o núcleo familiar. Já pensou?

Pois bem, coincidentemente, nas últimas semanas eu reassisti à série O Conto da Aia, baseada no romance de Margaret Atwood publicado em 1985 — que também li. Fiz isso para relembrar a história, já que uma nova produção do mesmo universo, chamada Os Testamentos: das filhas de Gilead, havia sido lançada no Disney+

Para quem não conhece, O Conto da Aia se passa num mundo que enfrenta uma queda drástica nas taxas de natalidade, atribuída a doenças e desastres ambientais. Nesse contexto, fundamentalistas religiosos começam a ganhar espaço de fala e apresentar soluções bíblicas para uma sociedade que consideram moralmente degradada.

Entre as personalidades, está Serena Joy, mulher, ativista política e escritora ultraconservadora, que defendia não só a submissão feminina, mas o retorno aos papéis tradicionais de gênero. Serena atribuía a conquista dos direitos das mulheres àquela suposta crise. Era a porta-voz perfeita: uma mulher falando como era horrível ser mulher numa sociedade degenerada — e culpando feministas por isso. Para ela, a salvação estava na religião.

Até aquele momento, Serena podia ir a público defender seus pensamentos. Era, inclusive, incentivada pelo marido, que via em seu protagonismo uma possibilidade de difundir cada vez mais aquelas ideias e conquistar o apoio feminino. Então, ela falava sobre a beleza de ser mãe, sem ser. Sobre a beleza de ser submissa, sem ser. 

Peço licença para abrir um parêntese: como se não bastasse assistir ao vídeo de Figueiredo, também precisei ouvir de uma certa blogueira, empresária, divorciada e mãe-solo que ela era contra o voto feminino porque defende “uma monarquia católica confessional” em que “o Estado reconheça publicamente a realeza social de Cristo”. Uma ode à era feudal. 

Um dos comentários no post dela sintetizou meu sentimento: 

Captura de tela de um comentário no Instagram com 1.504 curtidas que questiona o posicionamento de um vídeo contra o voto feminino | Foto: Reprodução/Instagram

Voltemos. Na outra ponta da trama, está June Osborn, uma mulher americana comum. É a partir dela que conhecemos a crise e, sobretudo, o que vem durante e depois dela. E é muito curioso perceber o processo de ascensão desse regime totalitário. 

Por exemplo, June tem a transação do cartão negada ao tentar pagar um café. Ela liga para o banco e descobre que o dinheiro de todas as mulheres foi encaminhado às contas dos maridos, agora responsáveis por administrá-lo. Sua melhor amiga, Moira, uma mulher negra e lésbica, sequer ganha explicações. 

Em outra cena, June recebe uma ligação da escolinha da filha, que foi encaminhada ao hospital após uma febre alta. Na unidade médica, ela é interrogada por uma assistente social sobre sua configuração familiar e sua decisão de medicar a filha, levá-la à escola e ir trabalhar. Algo no tom: “Tanta gente querendo ter filho e você abrindo mão da maternidade para trabalhar?”. Dias depois, homens armados acessam seu trabalho, uma editora de livros, e todas as mulheres são demitidas sem explicações.

Sem trabalho, com o dinheiro confiscado e tendo sua maternidade colocada em cheque, June, que nunca se envolveu com política, vai para a rua reivindicar seus direitos. Mas era tarde: naquela altura, pessoas como Serena já haviam colaborado para suspender a Constituição, assassinar membros do Congresso e fundar uma nova República naquele país, a de Gilead. Os manifestantes que seguravam cartazes eram reprimidos com tiros. Não de borracha, de bala de verdade. 

Assim é um regime totalitário. Ou você é a favor, ou você não existe. 

Serena vira esposa de um “comandante”, um dos homens líderes do poder político instaurado naquela ficção. Já June é separada da filha e do marido e transformada em uma “aia”, uma pessoa escravizada cujo único propósito é reproduzir (já leu isso em algum outro lugar antes?). Nesse novo mundo, ela é sistematicamente estuprada para que esposas e comandantes tenham filhos. 

Serena Joy Waterford em traje azul-petróleo, uma das entusiastas de Gilead | Foto: Divulgação/Hulu

Agora, me diz: ao ler que uma mulher é sistematicamente estuprada, você sente um nó na garganta? Espero que sim. Mas, em Gilead, dificilmente sentiriam a mesma repulsa que você. Para admitir que alguém é vítima de um crime, precisamos reconhecer a sua humanidade. No Brasil, isso é validado a partir de um contrato social que garante direitos civis às mulheres. 

Em Gilead, o que vivia June não era estupro, porque, sem direitos civis, mulher sequer é gente.

É importante que falemos sobre esses direitos civis, que são recentes. Se você não se lembra, o direito ao voto feminino no Brasil tem a idade de algumas vovós: 94 anos (desde 24 de fevereiro de 1932). A Lei Maria da Penha, considerada internacionalmente uma das mais completas, é de 2006. Hoje, podemos dizer quantas mulheres são assassinadas por serem mulheres por conta da Lei do Feminicídio, que é de 2015. Até 2022, as mulheres precisavam pedir autorização expressa do marido para fazer uma laqueadura. 

É claro que essas conquistas não chegam a todas as mulheres como deveriam. E é por isso que nós, da Ponte, denunciamos e cobramos. Sempre visando ampliar direitos, não retrocedê-los. 

Conversando com a jornalista e ativista Maria Paula (que, por acaso, também é minha amiga), ela refletia sobre como a extrema-direita tem se apropriado de dados e conquistas para fazer a população acreditar que esse é o pior tempo para ser mulher. Um discurso que nem de perto busca ampliar direitos. 

Maria comentava que esses atores se aproveitam de dores reais das mulheres — como o aumento dos feminicídios, a violência doméstica de gênero, a misoginia, os ataques digitais — para legitimar seus discursos tradicionalistas. É massa de manobra barata. 

Coisas como: “antigamente as mulheres não morriam tanto porque estavam em casa”. E, quando encontram aliadas, um corpo feminino que se propõe a propagar esse papel, regozijam-se. 

E, no fim, é disso que se trata: mulheres não votam mal. Pelo contrário, a autonomia feminina tem feito com que mulheres votem cada vez mais conscientes em candidatas(os) alinhadas(os) aos seus princípios. A verdade é que as mulheres são grande parte do eleitorado e decisivas para qualquer eleição. E, portanto, um risco para quem tentar retroceder direitos.

Lembra da Serena Joy que eu comentei no início? Existe uma passagem bem importante da série em que ela percebe que as meninas de Gilead nunca poderão ler a Bíblia Sagrada, a suposta razão para todas elas estarem lá. Já que ler, qualquer coisa, é proibido. 

Então, em um gesto ousado, ela se articula com outras esposas e solicita uma reunião no Conselho de Gilead, onde estão os comandantes que governam o país, sendo um deles, como eu disse, o marido dela. Na intenção de comovê-los, ela mesma lê um trecho do livro sagrado para os cristãos. Ao sair da sala, seu marido — aquele que a incentivou a escrever um livro sobre o lugar da mulher e falar sobre o fundamentalismo em universidades e palanques — a pune por ler: cortando um de seus dedos. 

Quando assisti ao vídeo de Michelle Bolsonaro, em que ela lamenta que Flávio a “maltratou” e tratou seu apoio como algo “insignificante”, pensei em Serena. Personagem que mostra que pouco importa se você ajudou a construir aquele mundo; absolutamente nada vai se sobrepor o fato de ser uma mulher. Pior ainda quando não te consideram humana. 

É como dizia Simone de Beauvoir: “Nunca se esqueça de que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam colocados em risco. Esses direitos nunca devem ser dados como garantidos; você deve permanecer vigilante por toda a sua vida”. 

Seguimos vigilantes.

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